29 de Maio de 2008
“O legado da ciência”
Jornalista: Antonio Carlos Moreira
Veículo: Panorama Rural – São Paulo/SP
Categoria: Revista





O papel decisivo do conhecimento agropecuário produzido por centros de pesquisas do país – como o Instituto Agronômico, IAC, que completa 120 anos: o saber gerado impulsiona a produtividade, gera empregos e leva às mesas dos brasileiros alimentos em maior quantidade, saudáveis e mais baratos

Conhecimento estratégico

A competitividade se deve à transferência do precioso saber de cientistas, quase todos ignorados pela sociedade brasileira, aos sistemas produtivos

Não faltam indicadores reluzentes a ilustrarem a compe­titividade do agronegócio brasileiro. Inúmeros exemplos podem ser relacionados para justificar as razões da importância estratégica da atividade rural como geradora de de­senvolvimento econômico e social. A mais conhecida pe­lo grande público, a contribuição ao PIB brasileiro - em 2006, da ordem de 28,6%, cerca de 580 bilhões de reais -, é apenas uma delas. Na verdade, tal pujança resulta de outro valor fundamental, porém muito pouco presente na impren­sa nacional: o grau de excelência alcan­çado pelas ciências agrárias no Brasil. A ausência da pesquisa - aliás, de todas as demais áreas da ciência - dos meios de comunicação e, portanto, do cotidiano da sociedade, acaba de ser confirmada por um contundente trabalho.

Trata-se do estudo "Percepção Pú­blica da Ciência e da Tecnologia", reali­zada pela Academia Brasileira de Ciên­cias, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia. O levantamento revela que 84% dos brasileiros desco­nhecem qualquer instituição dedicada à pesquisa científica no país. Também 86% dos entrevistados não consegui­ram apontar um nome sequer de cien­tista brasileiro.

Cientistas anônimos
"O resultado denuncia o estado calamitoso do ensino nos cursos de primeiro grau, nível médio e até univer­sitário no país", lamenta Jaime Benchimol, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz. A Fiocruz, criada no ano de 1.900, no Rio de Janeiro, se constitui uma das mais importantes instituições de pesquisa em saúde, com vasta contribuição ao combate de epidemias no país. A Fundação leva o nome de seu segundo diretor, médico sanitarista responsável por diversos programas de sanea­mento público.

Na pesquisa recente, Oswaldo Cruz foi citado por 36% dos entrevistados que afirmaram conhecer algum pesqui­sador importante. São menos conhecidos pelos entrevis­tados os mundialmente renomados cientistas brasileiros Carlos Chagas, apontado por 8% das pessoas, e César La­tes, com apenas 4% das indicações.

Na agropecuária, sua admirável competitividade se deve menos à decantada bondade da natureza para com o país. Deve-se, sim, muito mais à transferência do pre­cioso saber de ilustres e desconhecidos cientistas aos sis­temas produtivos nas lavouras. "Ainda se credita o futuro da agropecuária brasileira à sua enorme disponibilida­de de território. É um erro", afirma Luiz Marcos Suplicy Hafers, liderança rural e produtor de café no Paraná e na Bahia.

"O grande ativo do Brasil é sua pesquisa e sua competência em administrar uma agricultura nos trópi­cos. O ativo do saber é incomensuravelmente maior do que possuir terras."

Crescimento sustentável
Nas lavouras Brasil afora, de fato, vão se encontrar avan­ços tecnológicos que conquistam admiração mundial. Tra­tam-se das muitas centenas de sementes melhoradas para diversas culturas. Geram plantas mais produtivas; adapta­das às condições de solo e clima das diferentes regiões e incorporando, até mesmo, novas características genéticas, como resistência à seca. Criam-se técnicas sustentáveis e manejos que auxiliam no controle de pragas e doenças; por fim, mais recentemente, atingem marcos históricos da ciência, casos da biotecnologia e do seqüenciamento dos genomas de citros e de café. Cite-se, ainda, o rebanho pe­cuário - não apenas o maior plantei comercial do mundo mas, principalmente, o mais saudável.

Foi graças às pesquisas que o campo se tornou um vigoroso celeiro de novas tecnologias. Isso explica, por exemplo, a capacidade do país para produzir combustí­vel limpo a partir de vegetais, o que desperta o interesse mundial, em especial dos norte-americanos. Foi esta a única razão que motivou, recentemente, a primeira via­gem, após sete anos de governo, do presidente George Bush ao Brasil, país até então irrelevante na política ex­terna daquele governo.

A contribuição da ciência agropecuária ao crescimento sustentável pode ser constatada sob outro prisma, o ín­dice de Desenvolvimento Humano, IDH. O economista Regis Bonelli, do Instituto de Pesquisa Económica Apli­cada, Ipea, analisou a evolução do IDH entre as décadas de 1970 e 1990, em 23 municípios ou regiões brasileiras com agricultura tecnificada. Os números mostram que o desenvolvimento médio anual nesses municípios esteve bem acima da média brasileira, de 3,2% no período. As­sim, por exemplo, o IDH em Barreiras, BA, foi de 12,3%; em Rondonópolis, MT; 6,5%; em Balsas, MA, 6,4%; em Petrolina, PE, 5,6%; em Paracatu, MG, 4,7%; e em Chapecó, SC, 4,5.%.

Dieta enriquecida
Outro relatório, assinado pelo IBGE, aponta um ex­traordinário ganho de produtividade: na última década, a área plantada cresceu 12%, enquanto a produção sal­tou 93%. Na produção de carnes, os dados positivos tam­bém impressionam. Até alguns anos atrás, o tempo para preparar um bife ou a picanha do churrasco demorava - entre a cria, a engorda e o abate - em média três anos; hoje, se tornou comum entre os pecuaristas manejos que permitem entregar ao frigorífico o boi de um ano. Tam­bém se refletem nas metrópoles urbanas os benefícios da competitividade que envolve a cadeia agrícola milho-ração-frango.

Como rege a clássica lei da oferta e da demanda, o aumento da produção de frango fritou os preços desem­bolsados pela população nos supermercados. A dona-de-casa constatou, na boca do caixa, a redução do preço dessa carne: o quilo se retraiu de US$ 1,5, em 1990, para US$ 0,50, em 2002, segundo levantamento da indústria Perdigão. O resultado se viu no consumo de frango entre os brasileiros. Mais que dobrou: de 13,4 kg per capita, no início dos anos 1990, em 2000 chegou a 30 kg. "O preço atraente para as classes de renda mais baixa adiciona uma importância política estratégica à cadeia do milho-ração-frango", sustenta Irene Trocoli, pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas, FGV-RJ. "A cadeia da avicultura se tornou a grande responsável pelas estatísticas de aumento no consumo de proteínas animais por parte da população - indicador clássico de avanço econômico."

Marco histórico
Se a propulsora deste salto tecnológico foi a pesquisa agro­pecuária, desenvolvida por institutos que se tornaram re­ferências mundiais, um desses centros de excelência deve ser mencionado, neste ano, de forma especial: o Instituto Agronômico, IAC. Em 2007, seu pioneirismo comemora um marco histórico. O Instituto, atualmente vinculado à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, Apta, da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, está completando 120 anos.

"Criado em 1887, o IAC é a única instituição de pes­quisa agronômica que percorreu três séculos: desde o final dos novecentos, durante todo o século 20, e alcança este século 21", destaca Antonio Roque Dechen, diretor da Es­cola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz, Esalq/USP. Sem dúvida, os resultados impressionantes da agropecu­ária brasileira contaram com a contribuição expressiva dos pesquisadores que escreveram boa parte da história da agricultura no país. "A pesquisa, o desenvolvimento e a inovação que tornaram o Brasil líder mundial em agri­cultura tropical têm, em seus primórdios, uma institui­ção centenária, o IAC, berço de muitos cientistas", enal­tece Sílvio Crestana, presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa.

O engenheiro agrônomo Fernando Penteado Cardoso, ex-presidente da Manah Fertilizantes e atualmente dirigin­do a Fundação Agrisus, recorda-se, emocionado, da sua ligação com o IAC. "Ainda ginasiano, eu conversava com meu pai sobre nossa fazenda; ele mencionava o Institu­to Agronômico ao enfrentar problemas do cafezal velho em terra cansada, discussões essas que me despertaram para a agronomia."

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O país movido pelo café

A partir de meados do século 19, ainda sob o regime do Império, a cafeicultura da região oeste do estado de São Paulo detinha forte peso nas decisões políticas e econômicas nacionais. Daí o fato de Campinas ter sido escolhida como cidade a abrigar a Imperial Estação Agronômica, primeira denominação do IAC, fundada pessoalmente por D. Pedro II, em 1887.

A pauta das exportações, no último quartel daquele século, mostrava bem a força do café no cenário brasileiro. Os principais produtos exportados foram, em ordem crescente: couros e peles, 3,2%; algodão, 4,2%; borracha, 8%; e açúcar, 9,9%; enquanto o café representava 61,5% das vendas externas, totalizando cerca de 4,5 milhões de toneladas.

Onda verde
Apesar da pujança que exibia, a chamada "onda verde" da cafeicultura enfrentava dois graves problemas no final do século 19: a doença da ferrugem e a queda nas cotações no mercado internacional. No ano de 1894, a ferrugem no café já era objeto de pesquisas na área de fitopatolo­gia do Instituto Agronômico. Os programas de genética e melhoramento da espécie Coffea arábica começaram em 1932. Desses trabalhos resultaram cerca de 90% dos 4,5 bilhões desses cafeeiros cultivados no país. Destacam-se as cultivares Caturra, Catuaí, Icatu, Tupi e Obatã, as duas últimas sobretudo com alto nível de resistência à ferru­gem, e a Icatu Precoce, cujo outro benefício é a redução de aplicações de defensivos químicos.

O cerrado de Minas Gerais se tornou a maior região produtora de cafés arábicas do país. Uma das razões foi o fator mecanização - e acolhedora automotriz teve seu protótipo criado, no início dos anos 1960, na área de enge­nharia agrícola do IAC. "A moderna cafeicultura brasileira deve ao Instituto Agronômico os méritos pelas inovações que dão suporte ao seu desenvolvimento", afirma Nathan Herszkowicz, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café, Abic.

O programa Genoma do Café, marco no admirável mundo novo da ciência agrícola, foi proposto pelo IAC e desenvolvido em pareceria com a Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo, Fapesp, o Consórcio Bra­sileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café, CDPC, e a Embrapa Café. Contudo, embora esteja na origem de sua criação, o café não foi o único foco de atuação, desde os primeiros trabalhos da Imperial Estação Agronômica.

Quando a crise na cafeicultura se acentuou, a pesquisa de forma estruturada do algodão, a partir de 1924, permi­tiu alavancar a cultura. Em 1932, seria lançada a primeira cultivar, a IAC 738. As variedades desenvolvidas adaptadas ao cerrado brasileiro possibilitaram o incremento do seu cultivo na região. O mais recente lançamento, em maio último, é a IAC 25 RMD (Resistência Múltipla a Doenças), com maior resistência ou tolerância a 8 das doenças mais importantes na cultura.

Arroz com feijão
A dupla mais comum na refeição dos brasileiros in­corpora o legado das pesquisas do Instituto Agronômico. Os estudos genéticos com arroz começaram na década de 1930; a primeira cultivar comercial disponibilizada foi a IAC-1246. "A cultivar abriu novas fronteiras em todo o país e chegou a ocupar 60% das lavouras", afirma Luiz Ernesto Azzini, pesquisador do IAC. Na década de 1990, o destaque foi a cultivar pa­ra sequeiro IAC 201, pionei­ra do arroz tipo agulhinha, o mais comercializado do país. Mais recentemente, a cultivar de arroz irrigado IAC 105, resistente à brusone, doença do arroz mais expressiva no Brasil, segundo a Embrapa Arroz e Feijão.

Até o início da década de 1970, a produtividade média nas lavouras de feijão era de apenas 500 quilos por hecta­re. A história do baixo rendimento, com efeitos óbvios no preço do feijão no comércio, experimentou uma revolução com uma descoberta quase acidental, mas, em seguida, acompanhada de intenso melhoramento científico. Pesquisadores do Instituto Agronômico identificaram uma planta muito produtiva, cujo grão se diferenciava com lis­tras marrom; o feijão foi chamado de "carioquinha", por lembrar uma raça de suínos também com listras no corpo. Em poucos anos, o carioquinha se consagrou como o mais cultivado em todo o Brasil, e chegou aos países sul-ameri­canos e da África. Sim, quanto ao rendimento da cultura: hoje, alcança até 2.000 quilos por hectare.

Méritos da tecnologia
Cultivado pelos índios antes mesmo da co­lonização portuguesa, o milho está presen­te no cardápio de todas as regiões do país, sobretudo entre as classes populares. Após superar o atraso tecnológico que histori­camente a caracterizou, a cultura ganhou importância estratégica para o país, como terceira maior safra mundial. O milho se constitui ingrediente básico na ração do frango, prato hoje mais comum nas mesas do país graças à competitividade desta ca­deia produtiva. Esses benefícios resultam do advento do milho híbrido - e boa parte desse mérito se deve aos trabalhos inicia­dos no Instituto Agronômico.

O lAC lançou, em 1932, o segundo programa de milho híbrido do mundo, logo após os Estados Unidos. Até a déca­da de 1970, suas linhagens predominaram nas lavouras. O milho híbrido foi decisivo também para outra importante inovação, praticada em poucos países: o manejo da safrinha. Em 1994, cultivares com alta tec­nologia incorporaram a resistência à seca, e a cultivar Tai­úba, com tolerância à toxicidade de alumínio, favoreceu a expansão do cultivo do cereal no Cerrado.

A soja é desvendada
A soja era totalmente desconhecida no Brasil no final do século XIX - exceto nos laboratórios da Imperial Esta­cão Agronômica. Já nos idos de 1889, o Instituto conduzia experimentos com sementes da oleaginosa. Uma década depois, o pesquisador Gustavo D'Utra publicaria o estu­do "Nova cultura experimental de soja". No ano seguinte, o lAC encaminhava sementes à Secretaria de Agricultura para ser distribuída a agricultores. "Resultado das primei­ras seleções no Instituto, a Abura foi a cultivar pioneira de soja no país", lembra o pesquisador Hipólito Masca­renhas. Nos anos 1970, a cultura chegaria às regiões do cerrado, explica a pesquisadora Elaine Bahia Wutke "A viabilidade econômica do cultivo foi demonstrada, pela primeira vez, pelo Instituto Agronômico, inclusive com as indicações de adubação e manejo."A partir de 2001, a sojicultura brasileira enfrentou grandes prejuízos causa­dos pela ferrugem asiática. O pesquisadores aceitaram o desafio e, para da safra 2006/07, já foram disponibiliza­das variedades com resistências múltiplas e alguma tole­rância à ferrugem da soja.

Mudança de hábito
A ausência de pesquisas em agronomia no Brasil, até o final do século 19, explica o fato de o país inteiro - e não apenas os escravos e as famílias pobres - desfrutar de um cardápio nutricionalmente muito pobre. É o que analisa Benedito Rosa do Espírito Santo, economista e represen­tante do IIC, Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura da OEA, Organização dos Estados Ameri­canos. "Foram os imigrantes europeus e japoneses que introduziram o hábito do consumo intenso de olerícolas e de frutas de clima temperado." Esses alimentos, então, passaram a ser alvos da ciência agronômica.

As pesquisas em olericultura no Ins­tituto Agronômico começaram em 1927. O primeiro marco foi a introdução de se­mentes e o estudo da cebola Amarela das Canárias. Desde então, o IAC lançou mais de 40 cultivares de hortaliças no Brasil e em países da América do Sul. Uma culti­var de tomate, o Santa Clara, se consagrou como sinônimo de variedade nos Ceasas do país.

As frutas de clima temperado, antes ra­ras nas mesas do país - como uva, pêssego, nectarina, ameixa e caqui, entre outras -, resultaram de intensas pesquisas de adap­tação climática. Ao mesmo tempo, frutas tropicais nativas foram alvo de permanen­tes programas de melhoramento genético. Por exemplo, a cultivar de banana Nanicão, resistente à doença sigatoka amarela, tem contribuído para o manejo sustentável da fruta no país.

"Em citros, os trabalhos fizeram renascer os laranjais da tristeza virótica", destaca o pesquisador Ody Rodri­guez. A partir do ano de 2000, o Centro de Citros do IAC participa do sequenciamento de Xylella fastidiosa, agente causador da CVC, e da Xanthomonas axonopodis pv citri, agente do cancro cítrico. Com forte envolvimento em bio­tecnologia, o Centro seqüencia o genoma de novas raças do vírus da tristeza, além do vírus da leprose.

Os alimentos à base de trigo também chegaram ao Brasil pela bagagem dos imigrantes europeus. As pes­quisas no Instituto Agronômico começaram em 1937. O principal lançamento foi a IAC-24, primeira variedade de porte baixo, com tolerância ao alumínio. "A cultivar re­duziu a altura das plantas em 50 cm, e aumentou a produtividade média, de oitocentos quilos por hectare para os atuais três mil quilos", explica o pesquisador Carlos Eduardo Camargo.

As pesquisas também criaram condições de plantio da seringueira em São Paulo e diversos outros estados. Ainda ofereceram alternativa para a produção de essên­cias a partir de manjericão para a perfumaria fina e para o cultivo comercial de palmito - em ambos eliminando a pressão sobre plantas em risco de extinção.

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Trilhas abertas nas lavouras tropicais

Já em 1889, Franz Dafert, o primeiro diretor, com o auxilio de pesquisadores do IAC, descrevia as análises pioneiras de solo, fitossanidade, meteorologia, e a irrigação em hortaliças e frutas tropicais. "A liderança em agricultura tropical do Brasil, nos dias de hoje, se deve, em grande parte, aos cientistas desta tradicio­nal Instituição", afirma José Roberto Postali Parra, professor da Esalq/USP. Na solidão dos laboratórios e na lida do campo para a transferência das tecnologias aos agricultores, centenas de pesquisadores abriram as trilhas da competitividade. Armando Co­nagim, pesquisador do IAC, destaca os estudos sobre interpretação econômica dos ensaios com adubação mineral. "Esses trabalhos tornaram a adubação economicamente viável no país e deram grande contribuição para o aumento da produtividade."

Exercício de cidadania
O Brasil produz, atualmente, cerca de 3 milhões de to­neladas de batata. A cultivar lAC-2 se popularizou entre os bataticultores com o nome de Aracy. Embora a safra na­cional represente apenas 1% da safra mundial, possui elevado nível tecnológico: de acordo com a FAO, Orga­nização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agri­cultura, a produtividade no país é de 20.900 kg/ha, 21 % acima da média mundial. Também tem importância so­cioeconômica, cultivada em grande parte, por pequenos agricultores: segundo o Censo Agropecuário, em 1996, eram 100 mil bataticultores, 90% deles em áreas inferio­res a 50 hectares.

Outra cultura com forte cunho social, a mandioca lAC 576-70 revolucionou o mercado brasileiro na década de 1990. Rica em vitamina A e caretenóides, resistente a do­enças e ocupando praticamente 100% das lavouras, a cul­tivar viabilizou as exportações para a Europa e impulsio­nou a indústria de congelados e alimentos processados. A cultivar também viabilizou um projeto social do Instituto Agronômico: desenvolvido em parceria com prefeituras, ampliou seu plantio por famílias de baixa renda nos ar­redores de centros urbanos.

"Com uma extensa rede de Estações Experimentais em todas as regiões do Estado, o lAC é responsável não ape­nas pela consolidação de inúmeras culturas", diz Roque Dechen, diretor da Esalq/USP. "Alie-se a isso o apoio às tecnologias em fertilidade e conservação do solo, à biolo­gia e às áreas básicas, que abririam novos horizontes para a agricultura nacional." Nas pranchetas dos pesquisado­res foi determinado o modelo de zoneamento climático, já em 1890, quando do Instituto criou o serviço pionei­ro de meteorologia, ainda hoje imprescindível na deter­minação de regiões de cultivo e de seguro rural. Também participaram das principais questões relativas à irrigação e da implantação das bacias hidrográficas.

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O brilho da cana

A cana-de-açúcar é, hoje, a estrela da agricultura brasileira pe­rante os olhos do mundo. Mas já em 1892, o Instituto Agronômico estudava a gramínea. Na década de 1930, seriam introduzidas as variedades pioneiras CB e IAC para o controle da gomose e o mosaico, primeiras doenças registradas na cultura, no final do século 19 e na década de 1920, respectivamente. Nos anos 1970, quando o mundo vivenciava a primeira grande crise do petróleo, um convênio entre o IAC e a Copersucar introduziu 678 genótipos de vários países. Nos anos recentes, as contribuições seriam variedades forrageiras, para a pecuária leiteira e de corte, e cultivares adaptadas às condições edafoclimáticas de diferentes regiões do país. Outro trabalho envolvendo a vinhaça da cana-de-­açúcar transformou seu papel de vilã do meio ambiente em rico adubo nas lavouras.

Atraídos pelas empresas
Diante de inúmeras tarefas, no entanto, o Instituto Agronômico enfrenta um sério desafio: contornar a escassez de recursos públicos, muito aquém das necessidades dos seus pro­jetos. Com isso, por exemplo, vários pesquisa­dores já deixaram a Instituição, em busca de re­muneração e oportunidades de mercado mais atraentes. "É preciso um novo modelo jurídico que proporcione flexibilidade para a gestão do dia-a-dia. Precisamos, por exemplo, de maior autonomia para estabelecer parcerias", argu­menta Orlando Melo Castro, engenheiro agrô­nomo, pesquisador doutorado em Ciências do Solo e Nutrição de Plantas e diretor do Instituto Agronômico. A falta de recursos não é exclusiva no IAC, nem apenas da pesquisa agropecuária. Lamentavelmente, aponta o grave quadro em todas as áreas da ciência no país.

"As melhores condições de trabalho e de remuneração oferecidas pela iniciativa privada, além de esvaziar as equipes de pesquisa, atraem os novos profissionais formados nas melhores universidades do país", afirmou Edmilson Costa Filho, especialista em política científica, ao jornal Vale Paraibano, de São José dos Campos, SP. Costa Filho compara os sa­lários de instituições de ponta, como o Comando Geral de Tecnologia Aeroespacial, CTA, executor do programa espacial brasileiro. "Um pesquisador no topo da carreira que recebe 7 mil reais no CTA, na iniciativa privada pode ter vencimentos de até 25 mil reais."

Luta por oportunidades
No campo social, há um outro desafio: fortalecer os arranjos comunitários e cadeias produtivas regionais pa­ra a democratização dos benefícios advindos da pesqui­sa. "É preciso criar alternativas sustentáveis de trabalho e renda através das diversas formas de produção familiar e comunitária", defende Castro. "Ou seja, internamente de­vemos continuar a aprofundar o conhecimento, mas este precisa contribuir para a inclusão social de ampla parcela da população." De fato, o atual modelo de assentamento rural no país, após duas décadas de sua adoção, pouco tem contribuído nesse sentido.

"A área reduzida dos lotes, a baixa qualidade da ter­ra, a falta de incentivos financeiros e a escassez de tec­nologia desenvolvida nas áreas tendem a reproduzir a unidade mais perversa da estrutura agrária brasileira: o minifúndio", afirma Elisa Guaraná de Castro, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. A esti­mativa atual do IBGE é de que existam aproximadamen­te 700 mil assentados. Cerca de 80% deles não possuem outra habilidade não-agropecuária, e os 20% que têm outra habilidade são, na maioria, pedreiros, motoristas e garimpeiros.

Um exemplo da contribuição para o resgate da cidada­nia no campo é o programa Treinamento Avançado para Jovens Assentados em Atividades Hortícolas e Produção de Mudas. A iniciativa é do Instituto Agronômico, em par­ceria com Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Incra, e a Fundação de Apoio à Pesquisa Agríco­la, Fundag. Os 21 alunos do primeiro curso participam de movimentos rurais atuantes no estado de São Paulo, como o MST, Movimentos dos Trabalhadores Sem-Terra, e a Fetaesp, Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de São Paulo.

Durante um ano, eles tiveram aulas sobre técnicas agrícolas avançadas e elaboraram projetos geradores de renda para suas comunidades, explica Carlos Eduardo Ferreira de Castro, pesquisador do IAC e coordenador do proje­to. "Foi um processo de conquista e um imenso exercício de cidadania." O assentado José Aledjane de Oliveira, 26 anos, aplicará as aulas no assentamento Olga Benário, na cidade paulista de Tremembé. "Dêem-nos a oportunida­de e a ferramenta, pois temos boa vontade e capacidade para crescer", diz o jovem.

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Patrimônio de raridades

O monumental prédio do Instituto Agronômico, erguido onde era a fazenda de café pertencente ao Barão de Itapura, traduz um rico período arquitetônico. Mas é o acervo da biblioteca o seu patrimô­nio material mais valioso. Um dos mais antigos e completos em Agronomia e Botânica da América Latina, ele é formado por 33 mil títulos de livros, 82 mil boletins e 3 mil títulos de periódicos Entre diversas raridades estão obras com quase trezentos anos, como Voyage de L'Arabie Hereuse par L'Ocean Oriental, de La Roque, de 1716; e Thesaurus Linguae Latinae, 1734, de Stephani. Encontram-se também registros pioneiros das plantas existentes no país, como Plantarum Brasiliae, de 1827, escrita por Pohl, e Flora Brasiliensis, de 1833, de von Martius - esses dois autores participantes da Missão Científica e Cultural Austríaca, que percorreu o Brasil de 1817 a 1821.

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Postado por Massey Ferguson às 23:51 | 0 comentários 
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