30 de Maio de 2008
“O Brasil que conta”
Jornalista: Martha Baptista
Veículo: Produtor Rural – Cuiabá/MT
Categoria: Revista



A professora Vânia prova por A+B que matemática não é um bicho-de-sete-cabeças. Basta relacionar os conteúdos à realidade socioeconômica e cultural dos alunos

A pecuária de leite de Vila Rica, município situado no nordeste de Mato Grosso, a 1.276 km da capital, ajudou o Estado a conquistar uma rara honraria: ter uma professora incluída entre as 10 educadoras nota dez do Brasil em 2007, premiação concedida pela Revista Nova Escola (Editora Abril), uma referência no campo educacional. A professora Vânia Horner de Almeida, 32 anos, natural de Palmeirópolis (TO), começou o segundo semestre com pé direito: em 4 de agosto colou grau em Matemática numa turma de Licenciatura Plena Parcelada da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e, dois dias depois, recebeu a notícia de que seu projeto “A produção de leite e seus derivados, uma fonte de renda familiar” era finalista entre 3.306 inscritos em todo País. Isso lhe garantiu um prêmio de R$ 10 mil, que pretende investir na casa, um troféu e uma ida a São Paulo para apresentação final do projeto.

Mesmo que não seja escolhida a Educadora do Ano (o anúncio acontece no Dia do Professor, 15 de outubro), a maior vitória, garante Vânia, foi o reconhecimento público e nacional de que encontrou uma forma original de ensinar matemática a 54 alunos da 5ª à 8ª series do Ensino Fundamental da Escola Municipal Procópio Faria, localizada a 25km da sede de Vila Rica, na comunidade Itaporã do Norte, que tem sua principal fonte de renda na pecuária, principalmente a de leite. “O aluno só tem motivação para aprender o que tem significado para ele. Eu ficava frustrada porque percebia que os alunos sentiam-se desmotivados para aprender matemática. Eles não sabiam porquê e para que estudavam porcentagem, razão, proporção, gráficos e outros conteúdos curriculares”, conta a professora.

Instigada a mudar sua prática pedagógica durante o curso superior, Vânia encontrou inspiração na pecuária leiteira, atividade econômica que utiliza a mão-de-obra familiar. “Quase todos os meninos se levantam de madrugada para ajudar na ordenha, tanto é que o horário das aulas é adaptado à realidade local. As meninas ajudam as mães a fazer queijo, doce. Quem não é filho de produtor tem pelo menos um parente que produz leite”, conta Vânia, acrescentando que a venda do leite e seus derivados ajuda os produtores rurais a pagarem suas contas mensais. As outras atividades servem somente para a subsistência, como as criações de animais como galinha e porcos. Apenas uma minoria dos moradores de Itaporã do Norte faz algum tipo de agricultura e assim mesmo só para o sustento. Até a professora, que é casada e mãe de duas meninas, tem gado de leite e fabrica queijo mussarela.

Pesquisa de campo - O projeto foi apresentado no final de março de 2006 aos alunos, que durante o mês de abril reuniram dados sobre a quantidade de litros coletada por dia em cada propriedade, elaboraram um dossiê sobre as vacas ordenhadas com dados sobre idade, raça, vacinação, produção diária de leite, período entre a desmama e a lactação da cada animal; e ainda preencheram uma terceira ficha com informações sobre gastos (incluindo itens como pasto, ração, sal branco, sal mineral, vacinas, remédios) e receitas anuais (advindas da venda de leite e derivados, da venda de bezerros e recria das bezerras).

As dúvidas eram discutidas em sala de aula, onde os alunos trabalhavam com a professora textos de revistas e sites – sempre com muitos números - sobre temas como mercado de leite, manejo de pastagem, degradação dos solos e alimentação do rebanho. Em maio, já com os dados coletados em campo, Vânia iniciou o trabalho de elaboração de estatísticas e construção de gráficos, utilizando os dados sobre a produção média de leite em cada propriedade de todas as turmas envolvidas no projeto. Paralelamente os alunos receberam atividades tais como: “façam os cálculos para saber qual é o gasto (despesa) e a renda (receita) que tem com gado leiteiro”, “qual é o lucro bruto?”, “qual é o lucro líquido?”, “qual a porcentagem de vacas vacinadas contra brucelose na sua propriedade? Na sua turma? Nas turmas de 5ª à 8ª séries?”.

Nessa fase os estudantes começaram a trabalhar com outro questionário focado nas formas de comercialização do leite, com o objetivo de definir a mais lucrativa. Depois de visitarem três propriedades, onde acompanharam a fabricação de requeijão, doce de leite e manteiga, e de fazerem doce de queijo nas próprias instalações da escola, as turmas fizeram os cálculos e concluíram que a forma mais rentável da comercialização do leite é o doce de leite (rapadurinha), seguida do doce de queijo, que, na avaliação deles, é a forma de fabricação de derivados que dá mais trabalho (ver tabela). Para se chegar a essa conclusão foram contabilizados gastos com sal, coalho, açúcar e ovos, entre outros ingredientes, e embalagens.

Consumo de leite - Outra vertente do projeto foi a importância do leite na alimentação. Após a leitura de vários textos sobre aspectos como o consumo diário recomendado pelo Ministério da Saúde - para jovens de 11 a 19 anos, ele é de 700 ml/dia ou 256 litros/ano, maior que o aconselhado a outras faixas etárias -, os alunos pesquisaram a quantidade diária de leite consumida na comunidade. A conclusão foi reveladora: “A faixa etária que apresentou menor consumo foi justamente entre 12 e 18 anos, já que os adolescentes acabam substituindo o leite, farto na região, por refrigerantes e outras bebidas. As meninas, principalmente, ficaram muito assustadas, porque perceberam a importância do leite para prevenção de doenças como a oesteoporose”, afirma Vânia.

O projeto foi concluído em agosto de 2006 e, segundo a professora, ficou evidente nas avaliações, realizadas por meio de conversas e por escrito, que a maioria dos alunos aprovou a metodologia. “Percebi que eles aprenderam matemática e conseguiram relacionar os conteúdos apreendidos à vida diária”, comenta. No projeto apresentado à Comissão Julgadora da revista “Nova Escola” e que também serviu de base para a monografia final do curso de graduação, Vânia lembra que a matemática surgiu de necessidades concretas dos povos antigos, como para medir terras (entre os egípcios) e controlar os estoques no comércio (entre os árabes).

- Hoje ensina-se matemática sem o cotidiano e por isso as pessoas não aprendem. Temos que voltar a buscar a matemática no dia-a-dia, nos problemas sociais e econômicos. As escolas do meio rural devem contribuir para que os filhos dos produtores possam utilizar os conhecimentos matemáticos aprendidos para melhorar a sua vida, desenvolvendo neles a capacidade de relacionar esses conteúdos às suas necessidades - argumenta Vânia. Foi essa percepção da educadora e a capacidade de trabalhar a tão decantada interdisciplinaridade que chamaram atenção dos responsáveis pela seleção dos educadores nota 10. “Hoje sei que qualquer tema serve para se trabalhar a matemática”, constata Vânia, que desde agosto trabalha com Educação de Jovens e Adultos (EJA) na Escola Estadual Vila Rica, no período noturno. Pela manhã, ela continua se descolando até a zona rural para lecionar na Escola Municipal Procópio Faria, trabalho que lhe rende R$ 790 líquidos por mês.

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Postado por Massey Ferguson às 00:40 | 0 comentários 
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