Jornalista: Maristela Crispim Veículo: Diário do Nordeste – Fortaleza/CE Categoria: Jornal


CARIRI APICULTURA AGROFLORESTAL E ORGÂNICA Produção de mel ajuda a preservar o meio ambiente Sem desmatar para implantar um grande número de colméias é possível ter preço e compradores certos
As condições de clima, umidade e fertilidade a partir da Mata Atlântica atraem muitos produtores rurais. Usualmente, eles utilizam os recursos naturais em práticas tradicionais que destróem o frágil equilíbrio desses sistemas e, ao mesmo tempo, seu potencial produtivo. Por outro lado, o que pode ainda ser considerado “trabalho de formiguinha” começa a render frutos e mais frutos em muitas regiões com essas características no Estado do Ceará.
Em Nova Olinda, município localizado a 545,4 quilômetros de Fortaleza, incluído na Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe, atividades agroflorestais e também cultivos orgânicos começam a despontar como alternativa à produção tradicional, que garantem, ao mesmo tempo, sustentabilidade à atividade e preservação do meio ambiente. Uma dessas iniciativas é a apicultura. No sítio Tabuleiro, José Val de Matos, 24 anos, já cuida sozinho das 30 colméias implantadas pelo seu pai. Acreditando no potencial da atividade, que ainda não atende aos rígidos padrões da produção orgânica, ele sonha conseguir, dentro de dois anos, a certificação. Para isso, pretende ingressar no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) Jovem.
Único em dez filhos a se interessar pelo cultivo, já participou de seis cursos e sabe que, apesar de agroflorestal, sua produção ainda precisa de incremento para entrar no mercado orgânico, agregando mais valor ao produto. “As colméias devem ser produzidas com madeira especial, não podem ser pintadas ou conter grampos”, explica, demonstrando desenvoltura no negócio. Ainda assim, a produção já tem comprador e preço certos, através da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que produz sachês para a abastecimento da merenda escolar.
Mel orgânico Muitos produtores da região já conquistaram a certificação. Conforme o agente rural da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce) em Santana do Cariri, município vizinho a Nova Olinda, Ubiratan Alves de Barros, neste período do ano, assim como as abelhas, esses produtores migram para o sertão.
No Cariri, o auge da produção está concentrado entre os meses de setembro e dezembro, época da floração do cipó-uva, que produz um mel muito valorizado comercialmente por sua qualidade superior. Só em Santana, 49 produtores assistidos somam 3.650 colméias. Mas já existem aproximadamente 22 mil colméias em toda a Chapada.
Um dos compradores do mel orgânico na região é o paranaense Egon Harold Schelske, que trabalha atualmente com cerca de 300 produtores. Ele explica que, devido às normas dos orgânicos e também ao mercado nacional, sua empresa tem duas linhas de produção distintas, com 10 a 12% de diferença no preço. A orgânica é direcionada especialmente à exportação.
MANEJO POLÊMICO APA do Araripe é degradada A apreensão de lenha e carvão tem sido grande, mas não é o único problema ambiental na APA do Araripe
Um misto de ecossistemas envolve a Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe. Na porção da Floresta Nacional (Flona), mais antiga Unidade de Conservação (UC) do tipo no Brasil, com 60 anos completados no ano passado, há presença de mata úmida, vegetação típica da Mata Atlântica, envolvendo os municípios de Santana do Cariri, Crato, Barbalha e Jardim, numa área de 38.262 hectares.
Mas a APA é muito mais extensa, formada por 38 municípios, 15 no Ceará, 12 em Pernambuco e 11 no Piauí, totalizando 1.063.000 hectares, incluindo outros ecossistemas associados à Mata Atlântica, como o cerradão e o carrasco.
Reside exatamente no tamanho a grande dificuldade de realizar o monitoramento e fiscalização de atividades degradadoras, segundo o chefe da Unidade Avançada do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) da Região do Cariri, Eraldo Oliveira.
Para ele, a concepção dos planos de manejo para a APA é perfeita, mas a execução, sem fiscalização, monitoramento e acompanhamento, acaba legalizando o desmatamento. “Pedi inquérito civil público na Procuradoria Geral da República há um ano, com mais de 600 documentos, denunciando o ´modus operandi´ na Chapada do Araripe”, conta.
Eraldo conta que a madeira apreendida no Ibama tanto inclui procedências clandestinas, quanto planos de manejo com uso indevido da documentação, de dezembro para cá, normalmente flagrada durante o transporte.
Entre outros problemas ambientais da região, o chefe do Ibama do Cariri inclui a extração mineral. “Além da utilização de produtos químicos, a atividade causa uma deformação no leito dos rios e acaba com as matas ciliares. Mas, como movimenta a economia local, estamos buscando, há três anos a sua regularização”, diz.
Eraldo cita, também, a pecuária extensiva e a agricultura tradicional, que desmatam e queimam a vegetação, como grandes responsáveis pela degradação dos recursos naturais na Região do Cariri.
“É grande a necessidade de políticas públicas para a garantia de um desenvolvimento agroflorestal. Em vez disso, vejo as prefeituras colocando tratores à disposição dos produtores para ararem a terra e vejo agricultores economizando o ano inteiro para comprar agrotóxicos”, declara.
Para ele, sem uma política consistente em relação ao meio ambiente nos municípios, a tendência é jogar tudo para cima do Ibama, que não dá conta de tantas atribuições.
MACIÇO DE BATURITÉ VALE DA BIODIVERSIDADE Cultivo agroflorestal e orgânico em Mulungu A proposta do sítio, em Mulungu, na APA da Serra de Baturité, a 110 quilômetros de Fortaleza, é deixar a natureza agir
O comerciante Wagner Pedrosa Quintino e a publicitária Francimayre de Sousa Sabóia passaram um ano visitando propriedades no Maciço de Baturité até encontrarem uma adequada. Degradada pelo cultivo tradicional de hortas, cana-de-açúcar, café e banana, a terra estava abandonada há dez anos, o que barateou o preço e favoreceu o restabelecimento do ambiente natural.
O passo seguinte foi semear aleatoriamente e deixar a natureza cuidar do resto. “Caiu no chão, nasceu, a gente não arranca”, afirma Wagner, que não usa biofertilizantes ou defensivos naturais: “Se der praga, morre e nasce outra coisa”. Ele corta os troncos das bananeiras que caem e os coloca ao redor das mudas, garantindo umidade e nutrientes na estiagem. “Queremos provar que reflorestar dá mais dinheiro que desmatar´, diz. ´A nossa concepção de orgânico não é apenas ´sem agrotóxico´, mas uma produção que respeita o ambiente e o homem, sem colocá-lo no centro”, conclui, Mayre.
Seis anos depois, o Sítio Paraíso da Biodiversidade há quatro faz parte da Associação para o Desenvolvimento da Agropecuária Orgânica do Ceará (Adao), devidamente certificado, produzindo principalmente banana e café, mas também pato, galinha e ovos.
Além da agricultura orgânica, o casal adota o Sistema Agroflorestal e a permacultura, que une conhecimentos seculares à ciência moderna, para o desenvolvimento integrado da propriedade rural de forma viável e segura. A irrigação se dá por gravidade, sem uso de energia. Com a manutenção da vegetação, o fluxo de água foi aumentando até se estabilizar. A casa principal e a do caseiro passaram por reformas, respeitando o relevo e as plantas e utilizando materiais de demolição, numa proposta de propriedade autosustentável.
SERRA DA IBIAPABA MUDANÇA NAS CULTURAS Orgânicos da Ibiapaba para supermercados Além de São Benedito, há produtores orgânicos ligados à Apoi em Carnaubal, Ibiapina e Ubajara
A Chapada da Ibiapaba há muito é cobiçada para a agricultura tradicional, com destaque para a cana-de-açúcar e o café, a princípio; partindo, depois, para a banana, hortaliças e, mais recentemente, flores. Tradicional, neste caso, significa desmatamento, queimadas e uso de agrotóxicos em grandes quantidades. Mas, com o apoio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce), a situação começa a mudar.
Segundo o gerente de produtos da agricultura orgânica da Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA), Hermínio Lima, há 12 produtores ligados à Associação dos Produtores Orgânicos da Ibiapaba (Apoi), cinco à Associação para o Desenvolvimento da Agricultura Orgânica (Adao) e mais a empresa Nutriorgânica produzindo; e outros iniciando. “Estamos mobilizando mais de 92 produtores, mas procuramos unificar a certificação para ampliar o mercado”, explica Cícero Diniz Vieira, agente rural master de agricultura orgânica da Ematerce na Ibiapaba.
Em São Benedito, a 315,4 quilômetros de Fortaleza, fica o Sítio Estiva, cultivado por Manuel Gomes da Silva, 44 anos. Em 12 hectares, produz grande variedade de verduras, legumes e frutas. Ele reconhece que o manejo não é fácil. “Eu economizo no veneno, mas emprego mais gente”, diz.
Por outro lado, preço, produção o ano inteiro e comprador certo são compensadores. Além da Apoi, que comercializa para redes de supermercado em Fortaleza, Sobral e Piauí, a produção é destinada a prefeituras, para merenda escolar, e, em breve, espera, para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Como no manejo orgânico há exigência de quebra-ventos, evitando contato com culturas tradicionais, ele aproveita para plantar frutíferas, como a banana, e forrageiras para os animais. Também mantém intactas áreas de mata nativa e a vegetação em torno dos mananciais e pratica a rotação de áreas e culturas. Como defensivos, utiliza pimenta malagueta, alho, cravo-de-defunto, manipueira e nim; e no fermentado biológico, estrume de boi verde, cinza de madeira de casas-de-farinha ou engenhos, farinha de osso, rocha triturada e leite.
LITORAL OESTE PROBLEMAS NOS MANGUEZAIS Acaraú vive crise na pesca Na localidade de Curral Velho, a comunidade se queixa da recente redução na disponibilidade do pescado
O Rio Acaraú, com um curso de 320 quilômetros, nasce na Serra do Machado, em Itatira, e lança-se ao Atlântico por meio de dois braços, no município de mesmo nome. Lá, comunidades pesqueiras se ressentem da queda da produtividade. Curral Velho, em particular, tem vivido, há alguns anos, em forte conflito com uma recente atividade econômica, a carcinicultura (criação de camarão em cativeiro).
Impactos Além de dificultar o acesso dos pescadores e marisqueiras aos manguezais, em alguns pontos, a atividades tem provocado impactos no ecossistema durante a despesca, quando seus efluentes (resíduos líqüidos) são lançados nos estuários e gamboas (local, no leito dos rios, onde se remansam as águas, dando a impressão de lagos serenos), sem tratamento adequado, promovendo desequilíbrio no manguezal.
Estes impactos foram explicitados em relatório produzido por Grupo de Trabalho (GT), constituído pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), realizado em todo o Estado do Ceará, em 2004, e publicado em 2005.
Segundo a tesoureira da Associação Comunitária de Marisqueiras e Pescadores de Curral Velho, Maria do Livramento Santos, 43 anos, conhecida na região como Dona Mentinha, a comunidade é constituída por 484 famílias e cerca de 30 foram mais diretamente prejudicadas, com a implantação das fazendas de camarão, pela salinização da água e morte da vegetação.
Na área, segundo suas informações, foram implantadas cinco fazendas maiores e duas menores, uma delas já desativada. “Só não tem mais porque lutamos muito para a conservação do nosso espaço. No dia 7 de setembro de 2004 teve cinco baleados num conflito”, conta.
Para Dona Mentinha, as principais conseqüências da atividade na área foram o desmatamento e morte do manguezal, salinização da água e redução na pesca.
“Aqui teve conflito dentro da própria comunidade, porque muitos acreditaram que esses empreendimentos seriam bons para nós, porque iam trazer empregos. Realmente trouxeram, mas só na época da implantação”, relata.
Dona Mentinha conta que, em 2003, a Associação recebeu o Prêmio Marina Silva “Água bem comum gestão local”, como melhor comunidade lutadora em defesa do meio ambiente e contra a carcinicultura, pela Universidade do Vale do Acaraú (UVA). “Nós nem matamos e nem morremos, mas conseguimos impedir o avanço da carcinicultura”, afirma a marisqueira.
IniciativasUma das iniciativas da Associação para conter, não apenas o avanço da carcinicultura, mas da especulação imobiliária na praia, foi adotar uma norma de ninguém vender terra para pessoas de fora sem o conhecimento da comunidade.
Atualmente, o Centro de Educação Ambiental e Turismo Comunitário Encanto do Mangue, criado através de intercâmbio com uma igreja protestante européia, pretende dar um novo impulso à atividade comunitária.
A idéia é, ao mesmo tempo, garantir uma renda extra para a comunidade e desenvolver um turismo que contribua para o desenvolvimento local sustentável.
Além disso, está garantido o processo de inclusão digital dos jovens da comunidade, com acesso à Rede Mundial de Computadores (Internet), o que antes ficava caro e distante. Rafael dos Santos Honório, 17 anos, futuro instrutor, já está empolgado com as possibilidades descortinadas com a nova atividade.
LITORAL LESTE ARACATI Fazendas de camarão estão abandonadas Equipamentos sucateados denunciam o abandono de muitos empreendimentos em Aracati
Na comunidade do Cumbe, em Aracati, município localizado a 140,7 quilômetros de Fortaleza, diversos tanques para criação de camarão estão abandonados, denunciando que a atividade, a princípio promissora, acabou não dando certo para muitos.
“A carcinicultura chegou aqui em 1996. Em 2002, veio um pacote tecnológico que trouxe uma espécie exótica e insumos, que acabaram interferindo na produtividade dos nossos manguezais”, afirma João Luís Joventino do Nascimento, 32 anos, professor e líder comunitário, filho de pescador e artesã.
Na época, 90% da comunidade vivia da cata de caranguejo e muitos deixaram a atividade para trabalhar na instalação os viveiros. “Mas, enquanto dez famílias vivem de um hectare de manguezal, as fazendas só precisam de duas pessoas para cuidar de um hectare”, diz.
Ele relata, ainda, que a cidade de Aracati é abastecida de água pelo Cumbe há cinco anos e que a instalação das fazendas iniciou um processo de salinização deste recurso. “Um estudo da Cacege (Companhia de Água e Esgoto do Ceará) e da Universidade Federal de Pernambuco constatou que, se a atividade continuasse da mesma forma, Aracati não teria mais água doce”, destaca.
Processo violento Para Luciana Queiroz, assessora do Projeto Populações e Manguezais do Instituto Terramar, especialmente no Nordeste, onde se registram os níveis mais baixos de desenvolvimento humano, o cultivo de camarão se desenvolveu de forma mais agressiva, sob a alegativa da geração de emprego e renda. “Na realidade, assistimos a uma atividade de natureza exclusivamente econômica seguir as mesmas trilhas da destruição deixadas nos países por onde já passou”, ressalta.
Destaca que, além das ameaças de degradação ambiental ao ecossistema manguezal, a carcinicultura está associada a graves problemas sociais que incluem violação dos direitos humanos, violência, apropriação de terrenos públicos para uso particular, deslocamento de populações locais e conflitos sobre a posse da terra.
SERTÃO ILHAS DE UMIDADE Florestas sem proteção Fragmentos considerados em mapeamento financiado pelo MMA continuam desprotegidos
Mapeamento da Mata Atlântica e Ecossistemas Associados no Ceará, financiado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), em 2004, incluiu fragmentos diminutos do bioma, muitas vezes impossíveis de serem detectados na imagem de satélite.
A Serra das Matas, com seus 21,29 hectares onde existem apenas fragmentos de mata úmida, mereceu destaque. O estudo concluiu que outrora toda a serra era recoberta com este tipo de vegetação, pela sua altitude, em média, superior a 700 metros. Até aquele momento, a Serras das Matas nunca tinha sido mencionada como área de ocorrência deste tipo de vegetação. O próprio estudo sugeriu que as áreas com estes fragmentos de mata úmida encontrados fossem preservadas na forma de Unidades de Conservação (UCs) de uso restrito, antes que desaparecessem por completo e se perdessem um dos últimos redutos, na região, das espécies florestais deste tipo de vegetação, o que, infelizmente, ainda não ocorreu.
“Ilhas” de Mata Atlântica Botânica e geógrafa, a professora aposentada pesquisadora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Angélica Figueiredo, que participou do mapeamento de 2004, explica que, no Ceará, as florestas úmidas são consideradas, pela estrutura da vegetação e pelos elementos da flora, “ilhas” de Mata Atlântica disjunta da mais tradicionalmente conhecida no Brasil, que vai do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, próximo à faixa litorânea.
Segundo suas informações, estas florestas eram consideradas, no Ceará, nas serras cristalinas de Aratanha, Baturité, Maranguape, Meruoca e Uruburetama. As serras das Matas (Monsenhor Tabosa) e do Machado (Itatira), por apresentarem menores extensões, apenas o seu topo, só em 2004 foram mapeadas.
“Estas espécies podem ser consideradas em extinção, dadas as constantes retiradas da cobertura vegetal destas diminutas ´ilhas´, se considerarmos o todo cearense. A dilapidação deste patrimônio é hoje um capítulo triste na história do Ceará, que, em pouco tempo, não terá esta paisagem para lembrar”, alerta.
Entre as espécies da flora ameaçadas, a professora destaca: amarelão (Atalea ovata), bálsamo (Myroxilon peruiferum), potumuju (Centrolobium microchaetum), amarelo (Platymenia reticulata), jacarandá (Jacaranda jasminoides), visgueiro cearense (Parkia platycephala), visgueiro amazônico (Parkia pendula), faveira (Dimophandra gardneriana), mirindiba (Buchenavia capitata) e candeeiro (Vanillosmopsis arborea). “Muitas outras podiam ser citadas. Esperamos que este caderno possa levar o conhecimento de um pouco da importância que têm as nossas florestas úmidas e que a população assuma a sua defesa”, diz.
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