21 de Maio de 2008
"Café – 2006: o ano do produtor"
Jornalistas: Lessandro Carvalho e Fábio Rübenich
Veículo: Agência Safras (www.safras.com.br) - Porto Alegre/RS
Categoria: Internet

Calma lá! À primeira vista, pode parecer que esta matéria vai versar meramente sobre um ano de preços bons para o produtor, em que os cafeicultores ganharam muito dinheiro. Falará é claro, a respeito do período de cotações mais altas para o café e das tendências para o mercado. Mas, o ano de 2006 foi importante para a cafeicultura do Brasil por mais motivos. O destaque mesmo não foi o preço, nem algo tão palpável. Dois mil e seis ficará marcado como o ano do produtor, porque foi o ano em que o cafeicultor conseguiu ter a melhor estratégia na comercialização, contribuindo decisivamente para uma sustentação adequada das cotações da commodity, mesmo no período de entrada da safra, quando os preços poderiam cair de forma acentuada. Até isso não ocorreu.

Há muito se fala que o produtor brasileiro está aprendendo a produzir café de qualidade, investir na produtividade, e a controlar custos, entre outras coisas que o cafeicultor sabe fazer bem da porteira para dentro da fazenda. Agora, o que sempre se falou, e o que ainda vinha se falando até a beirada de 2006, é que o produtor precisava aprender a comercializar o café. Não basta mais ao cafeicultor ficar entrincheirado com a faca nos dentes segurando os grãos na espera ilusória do momento sublime da batalha, quando os preços do café atingiriam as nuvens, e quando só então o produtor apareceria para a venda fazendo fortunas. Essa fantasia está desaparecendo do mundo do agricultor que lida com o café, seja ele grande, médio ou pequeno. Pois em 2006 o produtor teve uma postura muito diferente de anos recentes. Ele usou de todas as alternativas para uma melhor comercialização e diluiu riscos. Ao invés de apostar tudo numa subida de preço para vender toda a sua safra, ou a maior parte dela, o produtor vendeu aos poucos a produção, na hora certa. Soube aproveitar os famosos picos de preço, os sobressaltos das bolsas de mercadorias, fazendo média de preço, como gostam tanto de falar os economistas e analistas de mercado. O cafeicultor hoje está inclinado às novas formas de negociar café, como através de CPRs (Cédula do Produto Rural) e da BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros, de São Paulo).

Claro que a história não se faz de um dia pro outro. E há razões históricas, estratégicas, comportamentais e culturais (educação e conhecimento) para que este ano de 2006 tenha sido um marco na comercialização para o produtor. Importante começar falando da história como alicerce e cenário de tudo.

Antecedentes
Não precisamos remontar à época do descobrimento do café para entendermos um pouco mais o que trouxe o produtor até uma estratégia mais adequada de negociação da commodity em 2006. O analista de SAFRAS & Mercado, Gil Barabach, destaca que este processo de mudança tem como marco inicial a desregulamentação do setor, com o fim do AIC (Acordo Internacional do Café) junto à Organização Internacional do Café (OIC). Vale lembrar que antigamente o café tinha um sistema de cotas de exportação entre os países produtores, visando ordenar a oferta, dando suporte aos preços. Barabach cita ainda a extinção do IBC (Instituto Brasileiro do Café). "A brusca mudança nas regras do jogo no começo da década de noventa mexeu principalmente com o segmento produtivo. O mercado já não suportava mais trabalhar com preços artificialmente sustentados. O produtor passou, então, a conviver com a incerteza do preço, ficando exposto à concorrência", rememora o analista.

Com o mercado à mercê de suas próprias relações de oferta e demanda, as alterações que vieram na década de 90 foram calcadas pelo clima. A geada no ano de 1994 e depois a seca em 1997 no Brasil, maior produtor e exportador do mundo, arremessaram para as alturas o preço do café no mercado mundial. E o problema é que cotações elevadas e lucros momentâneos até exagerados atraem investimentos, o que traz o risco de aumentos desmedidos em áreas plantadas e futuras produções superando o consumo, redundando em preços mais baixos logo adiante. Esse incremento na produção veio pelo lado do Vietnã, que amparado pelas cotações internacionais mais interessantes irrompeu como grande produtor de café robusta e acabou derrubando a Colômbia do posto de segundo maior produtor mundial.

O analista de SAFRAS avalia que o Brasil teve desde então uma visão mais empresarial, com o foco dos produtores se voltando para o aumento da produtividade e redução do custo, antevendo o novo momento mundial para o café, "com a briga por mercados mais acirrada". Barabach coloca que em meio a isso, o governo mostrou-se muitas vezes incapaz de atender às necessidades de crédito e garantia de renda ao produtor. Desta forma, recaiu cada vez mais sobre a iniciativa privada a necessidade de financiar e buscar mecanismos para a gestão de risco. "Não é à toa que ainda na década de noventa tenha surgido a Cédula do Produtor Rural (CPR) e que o contrato de café na BM&F tenha aumentado sensivelmente a liquidez. O produtor aprendeu a viver sem a tutela do estado", afirma o analista.

Mesmo com uma visão mais empresarial, os preços internacionais melhores empurraram para cima também no Brasil a produção, que acabou superando o avanço do consumo. Isso revelou um grave defeito estrutural da cadeia café pelo mundo, que é a estagnação da demanda, o que deu origem a uma nova crise, com ápice no ano de 2002. "A partir daí ficou mais claro que não basta apenas produzir bem e a custo baixo, há também a necessidade de ter para quem vender esse café", ressalta Barabach. O volume estocado de café no mundo foi ampliado, derrubando as cotações, que atingiram níveis muito inferiores ao custo de produção. O analista de SAFRAS observa que no Brasil, a duras penas, os efeitos da crise foram atenuados pelo dólar supervalorizado e pela redução do custo médio das lavouras. Claro que houve graves conseqüências, com muitos produtores trocando de atividade ou se endividando severamente. Mas o produtor "sobreviveu" e a amarra ainda solta, evidentemente, era a da comercialização. Faltava o produtor acertar uma estratégia definitiva e mais resoluta na venda do café.

Mas a partir do tombo do mercado, os produtores começaram a olhar a atividade de uma outra forma. Existe um cuidado maior no mundo em relação aos impulsos produtivos. Os produtores estão bem mais cautelosos, não se preocupando em aumentar o parque cafeeiro, a fim de evitar erros como os da década de noventa. O produtor chegou a 2006 com uma preocupação maior com a questão comercial.

O blend que fez de 2006 o ano do produto

Os cafeicultores brasileiros já dispunham da luta por uma melhor produtividade e qualidade, que são pressupostos da cafeicultura moderna. Restava a comercialização precisa, adequada, idéia abraçada pelos produtores em 2006. Importante ressaltar que a temporada foi de oferta ajustada à demanda, sem grandes sobras de produto no mundo. O ano assim foi favorável em termos de preços médios, ainda mais com a previsão de uma safra bem menor este ano. No entanto, o Brasil colheu uma safra de ciclo produtivo maior em 2006 e isso sempre traz uma pressão de baixa nas cotações na época da colheita. Segundo a Conab (Companhia Nacional do Abastecimento), na safra 2005/2006 o Brasil colheu 33,33 milhões de sacas – em ano de baixo ciclo produtivo dentro da bianualidade da lavoura cafeeira, que alterna anos de alta carga produtiva com período de menor carga. Já em 2006/2007 a produção cresceu para 42,51 milhões de sacas, de acordo com o último levantamento da Conab. Ou seja, a safra foi maior e poderia haver uma pressão de baixa mais significativa na época de colheita, o que é comum. Mas não houve, devido justamente à competente comercialização e gerenciamento de risco de preço do cafeicultor. Isso contribuiu para dar sustentação às cotações no mercado mundial.

Com a história como base e lembrando sempre que o mercado neste momento é indiscutivelmente altista, torna-se mais compreensível a mudança da conduta do produtor. Uma série de aspectos forma e caracteriza este ano de 2006 como o ano da virada para o cafeicultor, em que ele se elevou a outro patamar na comercialização. Vejamos os componentes que se somaram, se misturaram, formando o "blend" que tornou este o ano modelo de como se negociar café.

-- Comercialização na forma e na hora certas
"O produtor começou a vender a safra mais cedo", frisa o presidente do Conselho Nacional do Café (CNC), Maurício Miarelli. Destaca que o produtor fez muitas operações de CPR (Cédula de Produto Rural), também procurou a BM&F para fazer hedge com o mercado futuro, fez vendas futuras para empresas, travas com exportadores negociando antecipadamente, buscou ainda troca-troca com companhias de fertilizantes e defensivos, entre outras alternativas de negociação. "Agora o produtor fez a estratégia correta. Segurou no momento certo a venda (da colheita da safra) e vendeu na hora certa", afirma Miarelli. A própria crise amadureceu o produtor, trouxe a cautela. "O produtor no mundo aprende com a crise. Quem apanha fica esperto", expressa o presidente do CNC.

Otto Vilas Boas, assessor de negócios da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), que é a maior cooperativa de café do Brasil e do mundo, atuante no sul e cerrado de Minas Gerais e em parte de São Paulo, concorda que o ano de 2006 tenha sido especial na estratégia de comercialização. "O produtor realmente aprendeu", ressalta. "O cafeicultor aproveitou os momentos certos e fez boa média na venda, melhorou muito a sua participação também nas CPRs e na própria BM&F", enfatiza.

O analista Gil Barabach também traz à luz a importância desta antecipação da venda. "Não houve aquela pressão da entrada de uma safra cheia no Brasil. O produtor conseguiu suavizar o efeito da entrada da safra", diz. "O cafeicultor contou com recursos do governo, que chegaram na hora certa, e isso possibilitou que o produtor conseguisse montar uma estratégia comercial mais eficaz", defende Barabach. Ele destaca a salutar montagem de estratégias comerciais que está sendo feita, para que não se tenha a necessidade de vender o café em períodos críticos. "O produtor agora dilui suas vendas ao longo do ano, mirando no preço médio e não tentando adivinhar o melhor preço do ano."

As CPRs, em que o produtor recebe no momento da operação para entrega futura, se capitalizando e podendo controlar a oferta em períodos de maior pressão, tiveram números recordes em 2006. Até o dia 12 de dezembro de 2006, o volume acumulado no ano (somando CPR Produto e Financeira) chegava a 3.222.829, o que representa crescimento de 6% em relação ao total de 2005, que foi de 3.043.336 sacas. Isso sem contar os números dos últimos 19 dias de 2006, ainda não divulgados.

Na BM&F, em que o produtor pode proteger-se no mercado futuro, controlando seus riscos (hedge), o mesmo ocorreu. Em 2006, as operações passaram de 500.000 contratos negociados, perdendo apenas para 2004, quando o volume foi de 620.997 contratos, mas superior a 2005 (485.902 contratos).

-- Ano de melhor capitalização e condução da política para o café
Maurício Miarelli ressalta que os financiamentos do Funcafé (Fundo de Defesa da Economia Cafeeira) foram significativos e liberados pelo governo Federal num momento apropriado. Lembra que foram disponibilizados R$ 400 milhões para o custeio, R$ 600 milhões para colheita e mais R$ 800 milhões para estocagem, o que contribuiu para que o produtor tivesse fôlego e não precisasse vender café apressadamente no período delicado da entrada da produção nova entre maio e agosto, principalmente. Otto Vilas Boas concorda com Miarelli e salienta a importância dos recursos alocados para estocagem terem saído desta vez na hora certa. Frisa que houve uma maior irrigação de recursos no sistema financeiro. Além do Banco do Brasil e do Bancoob (Banco Cooperativo do Brasil), outros bancos liberaram recursos.

A condução da política para o café pelo governo, com definição de estratégias no âmbito do Conselho Deliberativo da Política do Café (CDPC), que reúne toda a cadeia café (produção, indústria de torrado e moído e do solúvel, exportação e o próprio governo), vem sendo elogiada pelos produtores nos últimos anos. Como o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, determinou desde o começo de sua atuação no Ministério, era importante uma conciliação entre os diversos segmentos da cadeia em prol de uma política mais dinâmica para o café e o papel do CDPC foi fundamental numa parceria de governo e iniciativa privada. Em meio a isso, os produtores saíram da crise, o consumo interno brasileiro segue saltando e as exportações "vão muito bem, obrigado."

Agora, se os dois últimos anos foram de começo de recuperação para o setor no Brasil, Miarelli, que também é presidente da Cooperativa dos Cafeicultores e Agropecuaristas de Franca (Cocapec), adverte que o produtor enfrentou um "passado duro". "Precisamos nos recuperar da crise de 2001 a 2004", enfatizou. Observou que as recentes altas nos preços contribuíram para amenizar as dificuldades da cafeicultura, que ainda continuam sendo sentidas. Lembrou as dívidas que os cafeicultores enfrentam e que é preciso efetivamente de uma política de remuneração ao produtor.

-- Trabalhando com a visão de comercialização em 24 meses
É sabido e batido que a produção de café tem ciclos bianuais, com alternância de safra maior (cheia) num ano e menor no outro. A cadeia café e o governo brasileiro hoje sabem como é fundamental um ordenamento da oferta levando em conta as oscilações da produção, naturais do ciclo bianual, buscando assim uma proteção contra as volatilidades exageradas dos preços no mercado. Com isso, governo e produtores agora pensam no café em 24 meses. Se em 2006 a Conab estimou uma safra de 42,5 milhões de sacas (safra cheia), para 2007 a projeção é de uma safra média de 31,7 milhões de sacas. "Por isso, por essa queda de produção, temos que guardar café para o ano que vem", avalia Miarelli. Estima que o Brasil esteja carregando com estocagem via financiamentos do Funcafé e outros para a próxima temporada de 8 a 10 milhões de sacas.

"Precisamos produzir mais, já que o consumo vem crescendo no mundo", lembra Maurício Miarelli. "Temos que no mínimo manter nossa fatia de mercado", defende. Reflete que para isso o produtor tem que ter garantia de renda e que a cafeicultura precisa da manutenção de uma política agrícola bem desenhada em 2007. Observa que o governo fez um bom papel em 2006, mas que em termos macroeconômicos ainda falta muito a realizar para que os produtores encontrem um cenário favorável. Cita aspectos de infra-estrutura e logística, como o problema do gargalo do sistema portuário e do custo Brasil, taxas de juros e câmbio, que precisam ser ajustados.

A visão de pensar a política do café e ordenar a oferta em 24 meses tem sido defendida com veemência pelo secretário de produção e agroenergia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Linneu da Costa Lima, e pelas lideranças da cadeia café, além do próprio diretor executivo da Organização Internacional do Café (OIC), Néstor Osorio. Suavizando as oscilações de produção e a volatilidade que é a conseqüência, os produtores estão próximos da busca da garantia de renda e da diminuição do risco da atividade. Linneu da Costa Lima destacou no Encontro Nacional da Indústria do Café (Encafé), realizado em novembro passado em Guarapari/Espírito Santo, e em outras oportunidades, que o objetivo do Brasil é que os produtores tenham renda e que não falte café aos consumidores. Excesso de café representa baixos preços e crise. Mas a falta do produto também gera crises, à medida que cotações subindo desenfreadamente estimulam o aumento desmedido de plantios do grão pelo mundo e futuras safras exageradas. Além disso, é fundamental que o Brasil não perca fatias de mercado conquistadas, e para isso precisa ter ofertas regulares, dentro do possível, em 24 meses.

Da teoria para a realidade, o fato é que o país efetivamente terá uma safra pequena este ano, mas se preparou para isso carregando estoques de 2006 para 2007, o que poderá evitar uma volatilidade tão acentuada no mercado e também garantirá um desempenho positivo para as exportações do Brasil. Por isso, Linneu da Costa Lima disse no Encafé que os estoques vão cair, mas não haverá risco de falta de café ou de escassez que ameace tanto o mercado internacional.

O analista de SAFRAS & Mercado, Gil Barabach, aponta a importância dessa "percepção cíclica" do segmento produtor. "Já está se trabalhando com o olhar para 24 meses, com uma estratégia comercial voltada para duas safras. É importante que o produtor trabalhe a entressafra agora", aconselha. Barabach diz que nesse começo de 2007 pode ser um bom momento para o produtor antecipar a venda da safra 2007/2008. "Mesmo com uma safra menor, na colheita haverá pressão com entrada da safra e depois vem a pressão com a especulação com a safra futura 2008/2009, que será maior devido ao ciclo", adverte.

-- Produtor atento ao custo
Um dos fatores positivos da comercialização do ano passado é que o produtor mostrou também ter uma maior atenção e conhecimento em relação ao custo de produção. "Os produtores estão mais atentos ao custo, e tem mesmo que conhecer as relações de custo da lavoura para trabalhar a sua comercialização, pensando também nestes dados em 24 meses", afirma Gil Barabach.

O presidente do Conselho Nacional do Café (CNC), Maurício Miarelli, avalia que os custos da cafeicultura seguem elevados e destaca a mão-de-obra. Nesta safra maior de 2006/2007, com melhor produtividade, os custos estimados pela Conab, segundo Miarelli, ficam entre R$ 213,00 a R$ 220,00 a saca. O preço atual do café, entre R$ 280,00 a R$ 300,00 a saca para os melhores grãos em média, remunera o produtor. No entanto, "a gente ainda tem um estoque grande de dívida", contrapõe. Observa que o produtor ainda tem que se preocupar com a renovação do parque cafeeiro, com produtividade, qualidade, e levar em consideração custo de formação da lavoura, custo do capital de giro e da terra.

Miarelli tem a mesma opinião do presidente da Associação dos Cafeicultores de Araguari, Ramon Olini Rocha. "Estamos preocupados. O custo de produção é alto e o problema agora é que a safra de 2006 foi cheia e com preço bom. Deveríamos estar ganhando mais, mas isso não está ocorrendo", afirma Ramon Rocha. Ele estima que o custo médio dos produtores brasileiros deverá subir de R$ 220,00 a saca para mais de R$ 270,00 a saca em 2007, já que a safra será bem menor.

Em tempos em que se fala muito em se investir em produtividade, Ramon Rocha faz um alerta. "O produtor tem que ver bem o quanto pretende elevar a produtividade, porque isso necessariamente causa maior custo. E o quanto compensa aumentar a produtividade com esse custo?", questiona o dirigente da Associação dos Cafeicultores de Araguari, que fica no cerrado mineiro. Lembra que para obter crescimento de produtividade o produtor gasta mais com adubos, insumos em geral, energia, óleo diesel, e principalmente mão-de-obra nas áreas com menor mecanização, sem falar em outros gastos. É preciso um ganho significativo de rendimento na lavoura para se compensar esse alto investimento e essa conta precisa ser feita.

-- Qualidade e visão empresarial voltada ao consumidor
O cafeicultor brasileiro também está cada vez mais preocupado com a qualidade, e tentando valorizar comercialmente esta melhor qualidade. O analista de SAFRAS, Gil Barabach, coloca que aos poucos o produtor nacional vai conseguindo essa valorização. No entanto, ainda encontra resistência do exterior, que ainda enxerga o Brasil como vendedor de quantidade de café, e não de qualidade. "Essa quebra de paradigma segue necessária", ressalta Barabach. Daí os esforços que continuam sendo tomados pela iniciativa privada e governo em marketing para isso, assim como o aprimoramento efetivo da própria qualidade.

A visão empresarial do produtor brasileiro necessariamente está levando-o a olhar para o consumidor. Barabach observa que, com os mercados consumidores tradicionais saturados para volume e diante da dificuldade com novos mercados, o produtor se vê obrigado a ampliar a qualidade, a fim de melhorar a performance vendedora junto a esses compradores mais sofisticados e exigentes. E isso está sendo aprimorado.

"A última crise abriu os olhos para o estrangulamento do mercado consumidor de café, forçando, com isso, estratégias comerciais que saiam da simples venda de quantidade, com o produtor tendo necessariamente de assumir uma postura mais ousada em direção à venda com maior valor agregado. E não basta apenas produzir café de qualidade, é preciso saber vender esse café." Para o analista, é essa a próxima etapa. "Entra em cena o conceito de sustentabilidade, muitas vezes usado de forma distorcida, mas que deve permear as ações dos produtores, principalmente daqueles que pensam o seu negócio de forma continuada. O produtor agora está de olho no consumidor", analisa.

-- A busca da informação
A busca da informação, do conhecimento das alternativas do mercado, com as cooperativas tendo um papel importantíssimo nesse aspecto, é outro ponto que não pode ser esquecido, e que também vem sendo destaque para o aprimoramento da estratégia de comercialização do produtor. "O produtor hoje é muito interessado, busca informações, e realmente está mais informado", confirma o assessor de negócios da Cooxupé, Otto Vilas Boas, com o que concordam o presidente do CNC, Maurício Miarelli, e o presidente da ACA, Ramon Rocha.
Uma das lições das crises recentes é que para se fazer a negociação com o café não basta mais sentar em cima das sacas e esperar o preço bom cair do céu. E para se conhecer as várias formas de se comercializar e se proteger dos altos e baixos, os grandes produtores e também os de médio e pequeno porte estão a cada dia mais conectados ao que acontece no dia-a-dia no mercado e correm atrás de informações, hoje muito mais à mão do cafeicultor com os avanços tecnológicos como a internet.

"Em tempos de internet e de altíssima competitividade, produtores de todos os portes estão mais atentos e sabem que o conhecimento é ferramenta para reduzir custos e aumentar a lucratividade com anos de comercialização mais acertada", afirma Gil Barabach, analista de SAFRAS & Mercado.

Produtores falam sobre a comercialização de 2006
Nada melhor do que os próprios produtores para falar sobre as estratégias que deram certo na comercialização em 2006. Buscar a capitalização adequada para fugir dos períodos de pressão de oferta, conhecer os custos e diluir riscos foram palavras de ordem.

- Sul de Minas - O cafeicultor Hugo Vilas Boas, que produz em cerca de 100 hectares em Guaxupé e Guaranésia, no sul de Minas Gerais, afirma que "o produtor já aprendeu a produzir, mas não a vender", o que está melhorando nos últimos anos.

Hugo Vilas Boas buscou a diluição de seus riscos variando bastante a comercialização. Destaca que buscou capitalização com as CPRs, que envolveram 13% de toda sua produção, operações feitas em agosto. Ele ainda financiou cerca de 20% da safra com recursos da estocagem do Funcafé. No mercado, Vilas Boas está familiarizado com a tentativa de fazer uma boa média de preço na venda. "Eu vendo picado", diz. Cita que há cerca de dois a três meses, quando o preço chegou a R$ 250,00 a saca começou a vender. Depois retomou negociações nos patamares de R$ 275,00, mais adiante R$ 290,00, depois R$ 290,00 de novo e R$ 292,00 a saca em negócio fechado dia 27 de dezembro. Ou seja, o produtor aguardou os picos de mercado para comercializar e fazer a tão comentada média de preço. "Vendo de acordo com a minha necessidade e com esses momentos em que o preço dá uma melhorada", conta Hugo Vilas Boas.

O produtor afirma que está permanentemente atento aos custos de produção. Estima que o custo nesta safra maior de 2006 chegou a R$ 188,00 a saca, obtendo uma produtividade média de 44 sacas por hectare. Embora 2006 tenha sido de maior lucratividade, Hugo Vilas Boas ressalta que vai ter de recolher a sobra desse ano de melhores preços para enfrentar um 2007 de produção muito menor e de custos naturalmente maiores. Ele avalia que o custo deverá ser quase o dobro do ano passado, só não crescendo mais ainda porque a produtividade menor acaba redundando em gastos mais brandos em alguns aspectos, como com mão-de-obra. Projeta produtividade em torno de 15 sacas por hectare.

Para Hugo Vilas Boas, o produtor de café hoje tem buscado as informações com maior preocupação sobre o mercado. "A gente conversa com o produtor menor, de roça, e ele já sabe no dia mesmo como que está o mercado e porque ele está daquele jeito", diz, impressionado, Hugo Vilas Boas.

-- No cerrado mineiro – Ramon Olini Rocha, presidente da Associação dos Cafeicultores de Araguari, é produtor de Araguari e Araxá, de cerca de 200 hectares, e conta como também buscou a antecipação das negociações da safra 2006/2007. Destaca que de 15% a 20% de sua safra ele negociou fazendo "trava contra Nova Iorque com exportador", o que é muito favorável como garantia de preço e para gerenciamento do risco com o mercado. Além disso, em torno de 20% da safra o produtor negociou antecipadamente via CPR, buscando uma capitalização para o período de colheita. De 5% a 10% da produção, Rocha diz que fez com troca-troca com adubos/agrotóxicos. Outra medida foi financiar 10% da safra via estocagem com o Funcafé.
O restante da safra se procura vender de acordo com a necessidade e com as oportunidades de melhores preços no mercado, observa Ramon Rocha, fazendo média com as cotações, o que, segundo ele, os produtores fizeram bem melhor em 2006. Com toda essa estratégia de comercialização, o produtor diz que "assim podemos diminuir os riscos com a volatilidade do mercado". "Se eu deixasse para vender tudo em agosto, estava perdido", brinca Ramon Rocha.

Ele destaca os custos elevados do segundo semestre, com vencimento de financiamentos, despesas de colheita e outros gastos. Ramon Rocha indica que o período julho a setembro, especialmente, é crítico em relação a custos para os cafeicultores, que muitas vezes são obrigados a vender café nessa época delicada de pressão de oferta. Ressalta que muitas vezes o produtor não consegue montar a estratégia comercial adequada pelos custos elevados. "O cafeicultor tem um custo muito alto, que hoje chega perto dos R$ 8.500,00 por hectare", alerta.

Mas, mesmo com custos elevados sendo um problema, as perspectivas positivas no mercado são um alento. A seguir veremos como o ano de 2006 apresentou preços mais altos e como as altas devem continuar em 2007, 2008 e...

Cafeicultor tira corda do pescoço em 2006

Preços devem se manter bons por pelo menos mais quatro anos


O produtor de café de um modo geral conseguiu "tirar a corda do pescoço" neste ano de 2006. Depois de vários anos de crise, entre 2000 e 2004, a recuperação dos preços internacionais do grão se solidificou e atingiu o auge em 2006. Na Bolsa de Nova Iorque (NYBOT, principal referência mundial de preços para a commodity), as cotações do café arábica percorreram uma "parábola" neste ano, conforme ilustra o analista de café de SAFRAS & Mercado, Gil. C. Barabach. "Em Nova Iorque, os preços vão fechando o ano num patamar mais alto em relação ao registrado em janeiro", salienta Barabach. Para Alexandre Nahum, corretor da Terrafuturos, os preços hoje estão num nível muito bom para as origens venderem. "As cotações se recuperaram bem em 2006", diz. Já o diretor geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Guilherme Braga, afirma que o mercado atuou de um modo firme, dentro de um quadro equilibrado entre oferta e demanda. "Alinhado com os fundamentos, o setor teve um ano de recuperação e firmeza", avalia Braga.

Preços futuros percorreram parábola no ano
Em janeiro de 2006, as cotações do arábica logo romperam o patamar de 120 centavos de dólar por libra-peso na NYBOT, o que gerou esperanças de que os preços iriam repetir o início exuberante de 2005. Porém, o movimento altista logo perdeu forças com os investidores levando em conta o significativo tamanho da safra brasileira (42,5 milhões de sacas segundo estimativa oficial do governo) que logo seria colhida. No início de 2005, havia a expectativa de uma safra pequena no Brasil, ao contrário de 2006. Mas, apesar da forte reversão nas cotações nova-iorquinas depois de janeiro, os preços não chegaram a atingir as mínimas de 2005, ficando em torno de 92 cents/lb, mantendo-se sempre pelo menos acima desse patamar. Em setembro do ano passado, houve uma boa florada nas lavouras brasileiras de café, o que já indicava uma safra grande em 2006. No mesmo mês de setembro de 2006, ocorreu o oposto. Não choveu adequadamente nas principais regiões produtoras, provocando um florescimento fraco e irregular, antecipando para o mundo que o Brasil colherá uma safra pequena em 2007 (entre 31 e 32 milhões de sacas, segundo estimativa da Companhia Nacional do Abastecimento - Conab). "Assim, os preços na NYBOT não recuaram tanto. Pelo contrário, começaram a ganhar força a partir de então, reverteram o processo de baixa e devem fechar o ano acima dos patamares registrados em janeiro", explica Barabach.

Já diretor do Cecafé não viu grandes oscilações nos preços em 2006. "As variações não foram tão intensas, mas provocaram uma boa valorização nos preços. As oscilações foram próprias de um mercado regido por fundos de investimento", diz Braga. Segundo ele, o Brasil está fechando o ano com exportações totais (grão, solúvel, torrado e moído) em torno de 27,2 milhões de sacas, respondendo por cerca de 30% a 31% do mercado mundial de café. Já a receita com as vendas externas está estimada em US$ 3,2 bilhões, uma das maiores da história da cafeicultura, aumentando mais de 10% em relação ao ano de 2005, determinando o resultado mais expressivo desde 1990, apesar do Real estar bastante valorizado em relação ao dólar norte-americano.

Brasil manterá "market share" em 2007, mesmo com safra menor
Apesar da esperada queda na produção em 2007, as exportações brasileiras nesse ano deverão recuar de modo pouco significativo, para cerca de 26 milhões de sacas, conforme estimativas preliminares de analistas de mercado. "Para 2007 ainda é difícil fazer uma projeção sobre as exportações, pois a produção será menor. É possível um recuo no volume de embarques, por conta da menor disponibilidade", acredita o diretor do Cecafé. Mas, pelo menos por enquanto, ninguém parece estar temendo perda de "market share". Braga não acredita em uma redução muito grande na fatia de mercado do Brasil. "Os outros países exportadores não têm condições de expandir a produção. O mais provável é que percamos uma parcela bastante ínfima da nossa participação, apesar de exportarmos menos", projeta. Na mesma linha, Nahum acredita que não existe risco algum de perda de mercado, porque "ninguém aumenta significativamente a safra de café. A América Central e a África não saem do lugar. O Vietnã está elevando um pouco a produção, sendo nosso principal concorrente na atualidade, enquanto que a Colômbia ainda não preocupa", sustenta o corretor da Terrafuturos. Por conta da provável queda no volume de exportações, vai diminuir um pouco a fatia brasileira no mercado mundial, mas "é difícil imaginar uma perda de mercado. Já no ano de 2008 o Brasil terá uma safra grande, a não ser que aconteça algum grave problema climático", salienta Barabach. Aliás, o "mercado climático" que toma forma a partir de junho e se estende até o final do Inverno no Brasil, está cada vez menos nervoso, pouco lembrando as agitações que ocorriam em um passado não muito distante. No Brasil, a última devastadora geada com grande potencial de quebra na safra de café ocorreu em 1994, o que naturalmente acabou provocando pânico das bolsas de futuros, impulsionando os preços para cima. "Com as temperaturas médias globais aumentando a cada ano, fica cada vez mais difícil se desenharem as condições para a formação do fenômeno nas lavouras. Na verdade, o último registro em regiões produtoras de café brasileiras foi em 2000, mas apenas o estado do Paraná foi atingido, e já faz algum tempo que este estado não tem grande representatividade em termos de produção", observa Nahum.

Bom momento deve se estender pelo menos até 2010/11
As perspectivas para o próximo ano também são boas para a cafeicultura nacional e mundial. Nahum projeta que o mercado estará equilibrado por pelo menos mais quatro anos, com produção e consumo não sofrendo grandes alterações. Segundo o "trader", dificilmente neste período os preços do arábica em Nova Iorque ficarão abaixo de US$ 1,00/lb, e em alguns momentos deverão até mesmo operar acima de US$ 1,30/lb. Barabach, ainda mais otimista, acredita que os preços do arábica iniciem o ano tentando superar a máxima de 136,75 cts/lb registrada em 2005. "As cotações tendem a manter a tendência de valorização, principalmente no primeiro semestre. Os estoques mundiais estão baixos, principalmente os nossos, e não podemos menosprezar a certeza de que o Brasil terá uma safra menor, além da previsão de déficit entre oferta e demanda mundial". Conforme indica o analista, os principais concorrentes brasileiros não assustam, pelo menos por enquanto. "A Colômbia deve continuar produzindo entre 11 a 12 milhões de sacas por ano, e o Vietnã não deve aumentar muito sua safra. O volume da produção mundial vai continuar oscilando de acordo com a volatilidade da safra brasileira", acredita. O diretor do Cecafé também está tranqüilo em relação ao ano de 2007. "Como o quadro de equilíbrio entre oferta e demanda vai continuar, os preços deverão seguir firmes. Não espero altas muito significativas nas cotações, mas elas permanecerão em níveis muito bons".
No mercado interno, a realidade externa de preços em ascensão deverá ser refletida com ainda mais intensidade. Com as exportações estimadas para 2007 em cerca de 26 milhões de sacas, mais um consumo interno de 17 milhões, seriam necessárias 43 milhões de sacas somente para atender essas duas pontas. "Com a produção brasileira não devendo superar 35,85 milhões de sacas, 2007 é um ano onde certamente vai faltar café, reduzindo quem sabe a estimativa de exportações para o período", avalia Barabach. SAFRAS & Mercado projeta uma safra 2007/2008 de 34,25 a 35,85 milhões de sacas.

Porém, os corretores do mercado de café trabalham com números mais expressivos, acreditando até mesmo que o Brasil fechou a produção brasileira de 2006 totalizando 48 milhões de sacas, devendo colher mais 36 milhões em 2007, volumes que garantiriam uma situação de oferta tranqüila para abastecer demanda interna e exportações por pelo menos mais dois anos. "Não temos estoques grandes, mas nenhuma ponta do mercado ficará desabastecida em 2007, e não podemos esquecer que em 2008 colheremos uma safra grande novamente", observa Nahum.

O presidente do Conselho Nacional do Café (CNC), Maurício Miarelli, também está entre aqueles que confiam num mercado altista até no médio a longo prazo. "Deveremos ter um bom preço para o café nos próximos dois anos pelo menos", avalia. O assessor de negócios da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), Otto Vilas Boas, concorda e diz que o mercado deve continuar numa tendência positiva, "a não ser que surjam novidades".

Gil Barabach adverte que a demanda é um gargalo estrutural visível. Ou seja, o consumo mundial cresce lentamente a uma taxa constante e por isso o mercado é sensível a qualquer salto na produção. Foi exatamente isso que ocorreu com desequilíbrio da oferta em relação à demanda em 2002, quando os produtores enfrentaram a mais recente crise de baixos preços, e é certamente o que os cafeicultores no Brasil não querem nunca mais ver se repetir.

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Postado por Massey Ferguson às 14:51 | 0 comentários 
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