Jornalista: Rodrigo Ramos Veículo: Agência Safras (http://www.safras.com.br/) - Porto Alegre/RS Categoria: Internet
A Agência SAFRAS realizou uma série de entrevistas exclusivas com associações, fundações e cooperativas das principais regiões produtoras de algodão do Brasil, a fim de traçar um mapa do bicudo no país, um dos maiores problemas enfrentados pelo cotonicultor nacional.
Como lembra o engenheiro-agrônomo Márcio Antônio de Oliveira e Silva, coordenador dos monitores do Projeto Bicudo da Fundação Goiás (Fundação GO), "onde há algodão, tem bicudo". Então, resta investir no monitoramento e controle do inseto, para que as perdas não sejam tão sentidas. Vale ressaltar que a praga prejudica muito mais o rendimento das lavouras do que a qualidade da pluma. Sem prevenção, afeta a formação da maçã e, conseqüentemente, a produção.
É claro que há diferenças no combate, dependendo do nível tecnológico de cada região. Para monitorá-lo, são utilizadas armadilhas antes do plantio, onde é possível verificar com maior precisão o nível da infestação. Já para contê-lo, são usadas várias aplicações de inseticidas. Tudo isto gera um custo elevado, que só o produtor melhor estruturado pode arcar.
Conforme dados da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), o produtor gasta entre US$ 75,00 e US$ 130,00 por hectare anualmente para controlar a praga, gerando um custo médio de US$ 100,00. "Com uma área de aproximadamente 1 milhão de hectares, são gastos cerca de US$ 100 milhões por ano", relata o diretor-executivo da Abrapa, Renato de Freitas.
A quebra causada na produção pode chegar até 50%. Porém, na média brasileira, está estimada em 8%. "Isto representa R$ 309 milhões a menos para o setor na temporada 2006/2007", exemplifica Freitas. Dados internacionais mostram que, quando se tem um bom programa de combate, a taxa de retorno é de US$ 12,00 para cada US$ 1,00 investido.
Com o controle, os benefícios são percebidos em várias áreas. Com relação aos econômicos, há uma redução de custos, o aumento de produtividade e a melhora da fibra, o que gera mais renda. "Tudo isto torna o setor mais competitivo", frisa o diretor. Os ganhos ambientais são a redução no número de aplicação de inseticidas e o menor desequilíbrio biológico. Já os sociais englobam o menor risco de intoxicação, a criação de mais empregos e a viabilidade da atividade ao pequeno agricultor.
"A Abrapa tem consciência da enorme importância do tema. E por isso tem se dedicado em fazer desse assunto uma constante nas reuniões desenvolvidas junto aos órgãos públicos, produtores, e associações estaduais que a compõem", corrobora Freitas. Salienta que as experiências passadas não podem ser esquecidas, já que o inseto pode inviabilizar a cultura no país e a boa credibilidade que se conseguiu internacionalmente com a fibra brasileira.
Porém, atualmente, há um ingrediente a mais para trazer dor-de-cabeça ao cotonicultor: o câmbio. A valorização do real frente ao dólar está gerando um desequilíbrio no custo de produção e na receita. Por isso, a retração na moeda norte-americana tem centrado as atenções, deixando a praga, às vezes, até em segundo plano.
PROGRAMA BUSCA COMBATER INFESTAÇÃO ELEVADA NA BAHIA A infestação é elevada na Bahia, como ocorre na maioria dos estados do Brasil. A declaração foi feita pelo coordenador do programa do bicudo da Fundação Bahia, o engenheiro-agrônomo Marco Antônio Tamai. "Dependendo de cada sub-região, é maior ou menor", completa.
Para combater o inseto, foi criado, a partir da temporada 2004/2005, o Programa para Monitoramento e Controle do Bicudo do Algodoeiro do Oeste da Bahia, financiado totalmente pelo Fundeagro (Fundo para o Desenvolvimento do Agronegócio do Algodão).
"A extensão rural, com a pesquisa e controle, é efetuada pela Fundação Bahia", explica Tamai. A Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab) responde pela tarefa complementar, que é a fiscalização das lavouras. "Observa o cumprimento de datas de plantio, a destruição de soqueiras e tigüeras, além de abordar a educação fitossanitária", enumera. A Agência monta inclusive algumas barreiras, para aumentar a vigilância.
Segundo o coordenador, os cotonicultores do Oeste da Bahia, onde está localizada a maior parte das lavouras, fazem dez aplicações de inseticidas em média. "Isto gera um elevado custo econômico e ambiental", lembra. Os produtores também utilizam o armadilhamento antes do plantio. "Mas esta é uma ação que precisa ser melhorada", ressalta.
O engenheiro-agrônomo acha difícil estimar um percentual de quanto o inseto afeta a produção. "Um número conservador é de 2% a 5% de perdas", afirma. Nesta safra 2006/2007, foram cultivados 276 mil hectares com a cultura, estando a produtividade estimada em 243 arrobas por hectare.
A colheita na região tem que ser finalizada sempre até o dia 31 de agosto, última data para a destruição de soqueiras. "Geralmente, começa no final de maio e se estende até a metade de agosto", relata Tamai. Ele explica ainda que a época depende do sistema de plantio. "No ano passado, em função de problemas climáticos, os trabalhos foram excepcionalmente prorrogados", acrescenta.
CONSCIENTIZAÇÃO DO PRODUTOR FACILITA PREVENÇÃO EM GOIÁS O bicudo está bastante controlado nas regiões produtoras de algodão de Goiás. A afirmação é do engenheiro-agrônomo Márcio Antônio de Oliveira e Silva, coordenador dos monitores do Projeto Bicudo em Goiás. "Os cotonicultores estão bastante conscientes da necessidade de prevenção", explica. O projeto, desenvolvido pela Fundação GO (Fundação Goiás), tem apoio de toda a cadeia produtiva.
Os produtores goianos estão sendo orientados pela Fundação GO desde a safra 2002/2003, o que tem trazido resultados bem satisfatórios. "Quase a totalidade aplica os inseticidas necessários ao combate", salienta o engenheiro-agrônomo. Por isso, os danos à planta nesta safra 2006/2007 foram isolados e não devem acarretar em perda de produtividade.
A região também utiliza o armadilhamento para monitorar o inseto, 60 dias antes de iniciar o plantio. A colheita estadual começou na segunda quinzena de maio e se estende até 15 de agosto.
Conforme a Fundação GO, foram semeados 80 mil hectares em Goiás nesta temporada. "Ainda é difícil projetar o rendimento médio, mas deve ficar entre 230 e 250 arrobas por hectare", prevê o coordenador.
PRESENÇA GRANDE NO MATO GROSSO DO SUL PREOCUPA A incidência já preocupa o produtor de algodão do Mato Grosso do Sul. Segundo o engenheiro-agrônomo Gemerson Tomquelski, pesquisador de pragas da Fundação Chapadão, a infestação está um pouco alta no estado. A Fundação Chapadão - Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Chapadão - é uma instituição de pesquisa agropecuária criada por produtores rurais de Chapadão (Chapadão do Sul e Costa Rica/MS, e Chapadão do Céu/GO), uma região com aproximadamente 320.000 hectares de área agrícola.
Porém, há uma boa consciência do produtor em relação ao problema. "Estamos usando armadilhamento e controle químico nas lavouras, para combater a praga", relata Tomquelski. Mesmo sendo preocupante, a infestação é menor do que no estado de São Paulo, compara, acrescentando que visitou lavouras paulistas.
O bicudo, ao se alimentar ou fazer a oviposição (colocação dos ovos), prejudica a formação da maçã, comenta o engenheiro-agrônomo. Além disso, pode atacar a própria maçã, se a quantidade de insetos for elevada, deformando-a. Em ambos os casos, há uma queda da qualidade da fibra, que pode ser o escurecimento da mesma. Com relação à produtividade, o pesquisador afirma que não foi afetada nesta temporada.
A colheita do algodão plantado precocemente está em andamento no Mato Grosso do Sul. "São lavouras cultivadas mais cedo, que sofreram um adiantamento do ciclo, pela escassez de chuvas no mês de março", frisa Tomquelski. Por isso, o rendimento das variedades semeadas mais cedo deve ser prejudicado.
Normalmente, são produzidas de 270 a 280 arrobas por hectare. "Mas é bom destacar que o que está afetando é o clima, e não o bicudo". A Fundação estima que tenham sido plantados entre 40 mil e 45 mil hectares.
INCIDÊNCIA É ALTA EM SÃO PAULO E AFETA PRODUTIVIDADE De acordo com o presidente da Associação Paulista dos Produtores de Algodão de São Paulo (APPA), Ronaldo Spirlandelli de Oliveira, a infestação é grande, "principalmente no final do ciclo de formação do ponteiro", trazendo prejuízos à produtividade.
O inseto, ao atacar os ponteiros do algodão, afeta o rendimento das lavouras locais, explica o presidente. A tecnologia aplicada nas plantações varia muito entre as regiões e os produtores paulistas. "Em Holambra, é feito não só controle específico, como também o monitoramento com armadilhas", relata. Já nas regiões de Ituverava e Leme, com média tecnologia, usam inseticidas, mas não armadilhamento.
Na região de Votuporanga, alguns produtores utilizam inseticidas, mas não monitoram-no. "A maioria não controla nem com baterias de aplicações específicas", frisa Oliveira. E na região de Martinópolis, onde o emprego de tecnologia é baixo, não há combate à praga.
Conforme o presidente, o prejuízo de qualidade se nota na má formação da maçã, produzindo uma fibra imatura, sem uniformidade. "Nas lavouras do estado, já existe perda de qualidade", afirma. A colheita teve início em fevereiro em Martinópolis. Nas quatro demais regiões produtoras, começou entre o final de março e início de abril, se estendendo até meados de junho.
AÇÕES DA AMIPA TENTAM AMENIZAR PREJUÍZOS EM MINAS GERAIS A situação está mais controlada nas lavouras de algodão de Minas Gerais. Segundo o vice-presidente da Associação Mineira dos Produtores de Algodão (Amipa), o engenheiro-agrônomo Norberto Gonçalves de Abreu, a infestação já foi muito maior, "do ano passado para trás".
Em 2006, o estado começou a usar armadilhamento para monitorar o inseto. "A Associação comprou as armadilhas com os feromônios e fez uma doação aos cotonicultores mineiros", conta Abreu. Com a iniciativa, a incidência já diminuiu muito nesta safra. "Antes, era péssimo. Agora, temos uma condição de convivência", afirma.
Outra ação da Amipa é fazer a medição por GPS de toda a área cultivada em Minas Gerais, prevista pela Associação em 29 mil hectares na temporada 2006/2007. "Isso nos ajuda muito a monitorá-lo", explica o engenheiro-agrônomo. Conforme ele, sem o controle, a queda de produtividade é enorme. "Praticamente não se colhe nada. Perde-se a lavoura na íntegra se a infestação for grande", comenta.
A colheita já iniciou no estado e deve se estender até o final de agosto. Segundo Abreu, houve uma antecipação atípica, provavelmente por causa do clima seco. "Geralmente começava em julho, mas dia 20 de maio já estávamos beneficiando algodão neste ano", exemplifica.
A produtividade média varia muito na região, dependendo da tecnologia empregada. "Tirando a soca, deve ficar entre 170 e 200 arrobas por hectare", prevê o vice-presidente, acrescentando que ainda é muito cedo para precisar.
BAIXA TECNOLOGIA DIFICULTA CONTROLE NO PARANÁ O baixo uso de tecnologia na maior parte das lavouras de algodão do Paraná facilita a infestação. A afirmação é do engenheiro-agrônomo Francisco Ubiratã Aires, coordenador técnico para algodão e café da Cooperativa Agroindustrial Cocamar. "Na nossa área de atuação, existe o predomínio de pequenas propriedades, onde a falta de recursos reflete no controle de pragas, principalmente do bicudo", explica.
"Neste ciclo, tivemos muita chuva durante o período crítico, dificultando o controle", acrescenta Aires. Os prejuízos causados pelo inseto estão mais relacionados à redução de rendimento do que propriamente de qualidade, pois promove a queda das estruturas produtivas da planta - botões florais, flores e maçãs. "No nosso caso, o maior ataque foi mais para o final do ciclo, suprimindo a carga da parte superior", comenta.
Além do bicudo, a falta de preparo correto do solo e a adubação insuficiente foram fatores decisivos para a queda de produção na área de ação da Cocamar, que somou 1.500 hectares, bastante pequena em relação aos anos anteriores. Estima-se, portanto, uma redução de 15% na produtividade em comparação com a previsão inicial, ficando em 1.400 quilos por hectare. "Em anos favoráveis, normalmente atingia 2.000 quilos por hectare", completa o coordenador.
Conforme a Cooperativa, a área total cultivada no Paraná em 2006/2007 foi de aproximadamente 11 mil hectares. "Muito pouca, para não dizer insignificante, para um estado que já foi o principal produtor de algodão do Brasil", frisa o engenheiro-agrônomo. "O rendimento estadual deve ficar próximo de 2.200 quilos por hectare", prevê.
Já a qualidade do algodão melhorou em relação ao ano passado, quando, além de todos os problemas de tecnologia enfrentados, houve uma seca prolongada, que também reduziu drasticamente a produção. A colheita na área de ação da Cocamar encerrou na primeira quinzena de maio, sendo que o pico se deu entre a primeira quinzena de março e a primeira quinzena de abril.
RENDIMENTO NÃO DEVE SER AFETADO NO MARANHÃO A presença não é muito elevada nas plantações de algodão do Maranhão. A afirmação é do gerente de Planejamento Agrícola e Pesquisa da SLC Agrícola, Aurélio Pavinato. "O inseto não deve afetar a produtividade no estado, devido à pressão de incidência ser baixa", acrescenta.
Conforme o gerente, os produtores estão fazendo uso de inseticidas quando há infestação. "Mas nem todos estão executando o manejo completo, composto por armadilhamento, aplicação em bordadura, em B1 (quando as plantas formam o primeiro botão floral) e direcionadas, além do MIP (Manejo Integrado de Pragas, que envolve o levantamento de pragas nas lavouras a cada três dias, avaliação técnica e decisão de controle)", explica.
Pavinato comenta que o bicudo provoca a perda parcial ou total do capulho, gerando "grande dano à quantidade de pluma produzida". Porém, em lavouras com número elevado, pode ocorrer queda de qualidade também. Para esta temporada, cuja colheita ocorre de 1o de junho até 30 de julho, o rendimento deve ser maior se comparado com a anterior. "Já no Piauí, será pior", adverte.
A avaliação das lavouras e os dados iniciais de colheita mostram uma produtividade em torno de 250 arrobas de caroço por hectare no Maranhão e 220 arrobas no Piauí. A área plantada no Maranhão está estimada em 5.564 hectares e, no Piauí, em 10.400 hectares. Somando os dois estados, chega-se ao total de 15.964 hectares, ante 15.834 na safra 2005/2006.
No último levantamento de SAFRAS & Mercado, elaborado pelo analista Miguel Biegai e datado de 19 de junho, a área no Nordeste, exceto Bahia, subiu de 78.550 para 80.500 hectares. Já o rendimento foi estimado em 1.150 quilos (76 arrobas) de caroço por hectare, ante 670 quilos (44 arrobas) na temporada passada. "Vale salientar que a Bahia não entra neste patamar e que o avanço da produtividade na região reflete exatamente a melhora nos estados do Maranhão e Piauí", completa Biegai.
SAFRAS PREVÊ PRODUÇÃO DE PLUMA EM 1,462 MILHÃO DE TONELADAS A produção brasileira de algodão em pluma deverá totalizar 1,462 milhão de toneladas em 2006/2007, crescendo 54,1% sobre a temporada anterior - 948,6 mil toneladas, conforme projeção divulgada por SAFRAS & Mercado. SAFRAS indica área plantada de 1,129 milhão de hectares na atual temporada, contra 837,6 mil hectares no ano passado.
"Há alterações importantes em relação ao levantamento de maio. A estimativa de área em alguns estados foi incrementada, assim como houve um ligeiro decréscimo em outros, de acordo com as informações obtidas junto a fontes de associações de produtores, corretores e consultores agronômicos", explica o analista Miguel Biegai, responsável pelo levantamento. No geral, houve aumento de área e novo ganho de produtividade.
No Mato Grosso, foram cultivados 570 mil hectares. Houve falta de chuva em algumas localidades, tanto no norte do estado, cujos ponteiros devem ser afetados, como no sul, principalmente em Itiquira. "Até o momento, a produtividade registrada tem sido considerada boa, mas espera-se uma redução ao final da colheita", prevê Biegai.
Os produtores baianos relatam uma disparidade grande entre as diversas regiões. Uns ostentam rendimento de 300 arrobas por hectare, enquanto outros, bem próximos, colhem 200 arrobas por hectare. Em alguns casos, a diferença é atribuída ao calendário de plantio. No entanto, a média está indicada de 230 a 250 arrobas por hectare.
A área semeada na Bahia está sendo revisada para 288 mil hectares, havendo uma significativa mudança de 16 mil hectares a mais, em função da elevação na estimativa de 262 para 278 mil hectares em Luís Eduardo Magalhães e da manutenção de outros 10 mil hectares em outras localidades, como Guanambi.
Em Goiás, foram plantados 78,7 mil hectares, que devem render 226 arrobas por hectare. O percentual colhido até o momento é inferior se comparado a igual período de 2006. "Mas não que a safra esteja atrasada. É que houve redução de área em regiões de baixa altitude, como Itumbiara, e forte avanço em de maior altitude, como Ipameri", exemplifica Biegai.
No Mato Grosso do Sul, a parte sul sofreu com a estiagem e teve a produção comprometida. No entanto, a região norte teve problemas mais brandos com o clima, com exceção dos produtores que plantaram mais tarde. A colheita está surpreendendo devido aos bons rendimentos, na casa dos 250 arrobas por hectare, ou até mais. A área é indicada em 44 mil hectares.
Em São Paulo, espera-se uma produtividade de 190 a 195 arrobas por hectare e uma área plantada de 28,2 mil hectares. Minas Gerais, com 28,3 mil hectares, deve fechar com 180 a 200 arrobas por hectare, em função da falta de chuva que ocorreu entre março e abril. No Paraná, foram cultivados 10,5 mil hectares e colhidas 150 arrobas por hectare.
ABRAPA PROJETA METAS PARA CONTROLE DO BICUDO NA SAFRA 2007/08 Não basta apenas traçar o mapa do bicudo no Brasil. O produtor quer respostas. Saber o que precisa ser feito para acabar com este mal que assola as lavouras de algodão. Por isso, a Agência SAFRAS foi questionar o representante máximo do setor, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), sobre as ações programadas para o combate ao inseto na safra 2007/2008.
Consciente do problema e dos riscos à safra brasileira, o diretor executivo da Associação, Renato de Freitas, concedeu entrevista exclusiva, detalhando os objetivos traçados para os principais estados produtores. "A praga pode causar um grande impacto à nossa produção, comparado ao problema da febre aftosa que assolou o país", acredita, explicando porque o tema é tão importante.
Recentemente, entre os dias 08 e 09 de maio, a Abrapa, juntamente com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), através da Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA) e do Departamento de Sanidade Vegetal (DSV), colaborou e participou, na cidade de Goiânia (GO), da "Reunião para Discussão do Programa Nacional de Controle do Bicudo-do-Algodoeiro".
O evento contou com a presença de representantes de órgãos de pesquisa, universidades, fundos para o desenvolvimento da cultura e órgãos regionais de defesa vegetal, vindos de vários estados, onde se discutiu a elaboração de uma Instrução Normativa (IN) que pretende criar o Programa Nacional de Controle do Bicudo (PNCB). "A Associação está alinhada e em parceria com o MAPA para colaborar no que for necessário para garantir a eficiência e resultados deste projeto", comenta Freitas.
Nesta reunião, também estava presente o representante do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), Jesus Leguiza, que realizou a apresentação do "Projeto Regional de Controle do Bicudo-do-Algodoeiro no Cone Sul" (Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia). "Vale lembrar que os presidentes destes países já assinaram uma carta de intenções para combatê-lo em suas respectivas nações", acrescenta o entrevistado.
MATO GROSSO PRETENDE INTENSIFICAR CONTROLE Líder nacional em produção, o Mato Grosso começou o trabalho de controle em dezembro de 2006 e deverá intensificá-lo. O foco é aumentar a conscientização e o conhecimento do cotonicultor, para se ter eficácia no combate à praga.
"O grande desafio está na destruição, após a colheita, da soqueira (emaranhado de raízes que fica na terra, que eventualmente rebrota e forma outra planta, indesejável para um padrão tecnológico adequado) e na eliminação das tigüeras (plantas que germinam a partir de grãos que se perdem, nas lavouras, rodovias e armazéns), conseguindo com isso um inicio de temporada melhor", salienta Freitas.
De acordo com a Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (AMPA), o estado tem o privilégio de manter índices admissíveis de infestação, que ainda não representam prejuízos econômicos aos agricultores na maioria das regiões produtoras, apesar da presença indesejável do bicudo na lavoura. Isto é resultado de investimentos de R$ 1,3 milhão que a AMPA está aplicando no programa contra o inseto, onde engenheiros-agrônomos fiscalizam sistematicamente a área plantada nos sete núcleos regionais da entidade.
Três associações de técnicos também foram criadas com este objetivo. O empenho em torno das ações envolve toda cadeia estadual. Nos próximos meses, o trabalho será reforçado com medidas ainda mais contundentes, considerando o fim da colheita. A prioridade dos produtores rurais é a destruição da soqueira do algodão no prazo determinado pela legislação estadual. A associação estadual é parceira do Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea-MT), responsável pela fiscalização das lavouras.
No núcleo de Lucas do Rio Verde, por exemplo, técnicos e produtores adotaram medidas de combate, como a colocação de "tubos mata bicudo" no perímetro das algodoeiras; o cuidado com o transporte do caroço, visando a não multiplicação de plantas voluntárias às margens das rodovias; o monitoramento dois meses antes da semeadura; as aplicações em bordadura e em glebas em que for constatada a presença da praga; a obrigatoriedade de compra do inseticida antes da safra 2008; a autuação de quem deixar plantas vivas, entre 15 de setembro e 30 de novembro; e a presença de um monitor para cada 700 hectares.
BAHIA APOSTA EM FISCALIZAÇÃO REGIONALIZADA A pressão do inseto nas lavouras do Oeste da Bahia foi muito variada nesta temporada, existindo localidades com pouquíssima e outros com alta infestação. "Em 2005/2006, o ciclo da cultura na região (do plantio à colheita) foi, em média, 30 dias maior que nas anteriores, devido a fatores climáticos", relata o diretor. Isso permitiu o maior número de gerações da praga durante a safra, a destruição mais tardia das soqueiras e, conseqüentemente, a redução no período de entressafra.
Estes fatores fizeram com que a infestação inicial na safra 2006/2007 fosse, em geral, maior nas diversas sub-regiões do Oeste baiano, com ocorrência mais precoce nas plantações. Durante a temporada, o controle da praga foi bem feito na maioria das fazendas. Diferente do que se aconteceu no ano passado, o ciclo apresentou duração menor, o que deverá facilitar o cumprimento da operação de aniquilação das soqueiras dentro do prazo estabelecido pela Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab).
No momento, o estado está em pleno pico da colheita, com a eliminação das soqueiras sendo realizada concomitantemente. "A qualidade do transporte da produção (algodão em capulho) vem apresentando melhora em relação aos anos anteriores, o que certamente deverá diminuir as plantas tigüeras na beira das estradas", acredita Freitas.
Agora, para 2007/2008, a Bahia quer ampliar a formação de grupos regionais, através dos "Projetos Integrados para Controle do Bicudo nas Sub-Regiões". Eles visam demonstrar a viabilidade prática de se implantar sistemas integrados (entre propriedades) de controle ao inseto, com a geração e validação de um pacote tecnológico de convívio em regiões de alta infestação, conciliando-se desta forma questões econômicas, ecológicas e sociais.
"Além disso, procura-se motivar as pessoas envolvidas na execução das atividades, aumentando a produtividade e a estabilidade do algodoeiro, servindo como modelo para que mais cotonicultores possam adotar programas semelhantes e adaptados às suas realidades regionais", acrescenta o entrevistado.
GOIÁS PRECISA DAR SEQÜÊNCIA AO QUE VEM SENDO FEITO Em Goiás, onde a situação é bem mais tranqüila, a meta é continuar o armadilhamento, orientando quanto ao controle correto, dando seqüência ao que já vem sendo feito. "Com a conscientização do agricultor goiano, foi possível reduzir a praga, obtendo ganho de produção no ponteiro da planta", destaca o diretor da Abrapa.
Os produtores goianos levam vantagem, pois são orientados pela Fundação GO (Fundação Goiás) desde a safra 2002/2003. Com isso, a maioria dos cotonicultores aplica os inseticidas necessários ao combate. A região também utiliza armadilhas para monitorar o inseto, 60 dias antes de iniciar o plantio.
MATO GROSSO DO SUL BUSCA MAIS RECURSOS PARA COMBATER PRAGA Atualmente, são usadas armadilhas e há o controle químico nas lavouras do Mato Grosso do Sul. Para a próxima temporada, a ambição é maior. Será buscada uma gestão pública junto aos parlamentares, visando atrair recursos específicos ao combate, além de mudanças nas leis sanitárias do estado. Também está em pauta melhorar a eficiência na destruição de soqueiras, mantendo uma maior vigilância sobre os resultados, e efetuar o controle das plantas tigüeras às margens da rodovia.
"É primordial ainda estabelecer um calendário de plantio de curto prazo, adequado às regiões sul e norte do estado, e fiscalizar para que este seja cumprido", frisa Freitas. O estado pretende criar o consórcio bicudo, envolvendo produtores, fundações e assistências técnicas, e reformular o Fundo do Algodão, visando captar recursos para o combate ao inseto.
MINAS GERAIS APOSTA EM PALESTRAS E DISTRIBUIÇÃO DE ARMADILHAS Está sendo realizado um trabalho preventivo em Minas Gerais, com palestras por parte da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mostrando ao produtor a importância do tema. A destruição das soqueiras e das tigüeras é bastante abordada. "Observou-se que a conscientização está dando resultados, com o cotonicultor conseguindo ter um melhor controle do bicudo, diminuindo a aplicação de defensivos e, automaticamente, tendo maior produtividade", comenta Freitas.
A Associação Mineira dos Produtores de Algodão (Amipa) incentiva o armadilhamento pré-safra, doando 100% das armadilhas e feromônios. "Além disso, há a orientação diária da equipe da Amipa, com visitas técnicas", ressalta o diretor da Abrapa. Cabe ao agricultor seguir todo o programa de combate à praga, para que os resultados sejam satisfatórios.Marcadores: 7ª edição, Edições anteriores  |